Título: Al-Qaeda assume ataques em Bagdá
Autor: Tranches, Renata
Fonte: Correio Braziliense, 21/03/2013, Mundo, p. 20
A rede terrorista Al-Qaeda assumiu a autoria da série de atentados que deixou 52 mortos e mais de 220 feridos em áreas xiitas de Bagdá, na terça-feira. Um comunicado do Estado Islâmico do Iraque, braço da organização fundada por Osama bin Laden, relacionou os ataques ao 10º aniversário da invasão norte-americana ao país, que levou à queda do ditador Saddam Hussein. “Isso que os atingiu é, se Deus quiser, apenas a primeira gota da chuva, a primeira da nossa vingança”, diz o texto.
O grupo ameaça provocar “mares de sangue” caso o governo iraquiano, dominado por políticos da maioria religiosa muçulmana xiita, não suspenda a execução de prisioneiros da minoria sunita. Mustafa Alani, conselheiro do Departamento de Estudos sobre Segurança Nacional e Terrorismo do Centro de Pesquisas do Golfo (com base em Genebra, na Suíça), acredita que a intenção da Al-Qaeda seja desestabilizar o país, que terá eleições regionais em abril. “Bombardear o Iraque tem duas finalidades: mostrar que o governo é falho na promoção da segurança e aprofundar, se isso é possível, as divisões entre sunitas e xiitas”, avaliou Alani à rede Al-Arabiya.
Heni Ozi Cukier, analista de risco e conflitos internacionais e professor da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), ressalta que, mesmo após a tentativa de iniciar um processo de democratização, fomentado pelos Estados Unidos, o Iraque continua sem equilíbrio político. “Os ataques podem alterar um cenário que já não é positivo. O país continua com muitos problemas e as comunidades (além de xiitas e sunitas, disputa espaço a minoria étnica curda) ainda não conseguem conviver. Se a situação sair de controle, podemos ter um nível de violência pior do que o dos últimos anos”, alerta Cukier.
Apesar de a Al-Qaeda dar sinais de que recupera força na região, o especialista lembra que a rede nem sempre atuou de maneira direta no Iraque e que, ao iniciar atividades no país, foi vista com desconfiança pela população. No entanto, Cukier sustenta que a intervenção dos EUA propiciou o recrutamento de militantes e a expansão das ações. “Se o objetivo era matar americanos, ficou muito mais fácil combatê-los ali, sem precisar organizar grandes atentados”, explicou. Segundo o especialista, os ataques recentes podem ser vistos como um aviso de que “mesmo na defensiva, a organização ainda consegue atuar”.