Título: Eternos aliados
Autor: Tranches, Renata
Fonte: Correio Braziliense, 21/03/2013, Mundo, p. 20
Na primeira visita a Israel como presidente, Barack Obama realça convergências quanto à ameaça iraniana e evita controvérsias sobre o estagnado processo de paz com os palestinos
Acusado em casa de negligenciar as relações com Israel, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, reafirmou enfaticamente o apoio de Washington ao principal sócio no Oriente Médio, com quem proclamou uma “aliança eterna”. No primeiro dia da visita inédita ao país, ao ser questionado por jornalistas sobre um eventual ataque preventivo de Israel ao Irã, Obama explicitou o direito dos israelenses de “decidir sozinhos” sobre essa opção, sem esperar um aval da Casa Branca. “Não espero que o primeiro-ministro (de Israel, Benjamin Netanyahu) tome uma decisão sobre a segurança do seu país e consulte qualquer outro país”, afirmou. As declarações sobre o Irã ofuscaram o tema das negociações com a Palestina, contemplado pelo visitante apenas com a menção de que “a paz deve chegar à Terra Santa”: Nunca perderemos de vista a paz entre Israel e seus vizinhos”.
Obama foi recebido no aeroporto de Tel Aviv por Netanyahu e pelo presidente Shimon Peres. Já nas primeiras declarações, defendeu a “amizade inquebrantável” entre os dois países e ressaltou que os EUA estão “orgulhosos de serem o mais forte aliado de Israel”. Netanyahu, que acaba de recompor seu gabinete após a vitória nas eleições de janeiro, não perdeu tempo para interpretar as afirmações do parceiro como um “sinal verde” para agir em relação ao Irã: “Aprecio que o presidente tenha reafirmado o direito e o dever de Israel de defender-se por si mesmo de qualquer ameaça”.
Depois de inspecionar com Netanyahu e Peres uma bateria do sistema antimísseis Iron Dome, financiado pelos EUA, Obama seguiu para Jerusalém e reuniu-se com ambos, separadamente, antes de conceder uma coletiva de imprensa ao lado do premiê. “Concordamos que um Irã nuclear armado seria uma ameaça à região, ao mundo e, potencialmente, à existência de Israel”, disse Obama. Combater as ambições nucleares do regime islâmico é um dos pontos de maior convergência entre EUA e Israel. Ontem, os dois líderes usaram a recorrente frase de que “todas as opções estão sobre a mesa” para impedir Teerã de obter a bomba atômica. “Preferimos (fazer isso) diplomaticamente. Os EUA continuarão com as consultas próximas a Israel sobre os próximos passos. E repito que todas as opções estão sobre a mesa”, disse o visitante, em sua primeira viagem ao país como presidente. Hoje, Obama deve fazer um aguardado discurso no Centro de Convenções de Jerusalém.
O propósito do presidente americano, na avaliação do especialista iraniano em Oriente Médio Houchang Hassan-Yari, é reafirmar que, apesar das diferenças entre os dois governos, a segurança de Israel é central na política externa de Washington. “Mas atacar o Irã com esse tipo de propósito é muito pouco. Diminuir o governo iraniano não é saudável e não ajuda em nada”, opinou Hassan-Yari, também professor da Royal Military College of Canada, em entrevista ao Correio. Para ele, o problema é o que Obama não diz. “Não há nenhum problema em dizer que Israel é o mais importante aliado dos EUA. Mas ele limita tudo a isso. Não diz, por exemplo, que existe um conflito ali e que territórios de uma nação estão sendo ocupados por outro Estado.”
O professor se referia às emperradas negociações entre isrelenses e palestinos. Em artigo publicado ontem pelo jornal Haaretz, o negociador-chefe da Autoridade Palestina (AP), Nabil Shaath, cobrou de Obama “decisões firmes e corajosas antes, que seja tarde demais”. Mas a visita não promete progressos claros. A própria Casa Branca esclareceu que Obama chega à região com o objetivo de “ouvir”, e não de lançar uma iniciativa de paz. Hoje, ele fará uma curta visita a Ramallah, na Cisjordânia, onde permanecerá algumas horas e se reunirá com o presidente da AP, Mahmud Abbas, e com o premiê Salam Fayyad.
Os encontros estão cercados pelo ceticismo de ambas as partes. Do lado palestino, manifestantes montaram barracas na área de um polêmico projeto de assentamento judaico próximo a Jerusalém Oriental para demonstrar desconfiança com a visita, repudiada também na Cisjordânia e na Faixa de Gaza. Em Israel, uma pesquisa mostrou que 58% dos entrevistados não acreditam que as presença de Obama promova um avanço palpável no processo de paz.
Análise da notícia O par foi escolhido
» Silvio Queiroz
Se palavras e expressão corporal servem como termômetro, as imagens de ontem indicam claramente que Barack Obama jamais dirá ou fará qualquer coisa que obrigue Israel a se mover, no estagnado tabuleiro do Oriente Médio. Nem mesmo o gesto sutil de Bill Clinton, em 1993, puxando o braço de Yitzhak Rabin em direção à mão estendida de Yasser Arafat, na histórica assinatura dos Acordos de Oslo.
Não por acaso, o presidente americano dirigiu-se repetidas vezes ao premiê israelense como “Bibi”, o apelido de Benjamin Netanyahu. No terreno estritamente político, o visitante satisfez praticamente a todas as expectativas do anfitrião: em resumo, declarou a segurança do “aliado eterno” como o pilar fundamental da política de Washington para o Oriente Médio. A isso tudo mais se subordina, do Irã à paz com os palestinos.
Noves fora, as declarações protocolares de parte a parte sobre a “solução de dois Estados” — Israel e Palestina em coexistência pacífica — apenas ressaltam que Obama escolheu seu par. À outra parte do conflito restará assistir à contradança.