Título: Passado incômodo ronda Banco Central
Autor: Martins, Victor; Bancillon
Fonte: Correio Braziliense, 25/03/2013, Economia, p. 8

Com receio de que a inflação continue em alta e saia do controle, o presidente do BC, Alexandre Tombini, tem feito apelos à memória do brasileiro em discursos e documentos

Viver no Brasil antes de 1994 significava estocar comida, comprar dólares, ter um salário de milhões na carteira de trabalho e, mesmo assim, não conseguir comprar muito. A inflação corroía a economia. As pessoas, sem condições de planejar, viviam um dia de cada vez, sem possibilidade de programar o futuro. Diferentemente de hoje, comprar um carro naquela época era um dos melhores investimentos. Quanto mais velho o automóvel, mais caro ele ficava.

Com receio da possibilidade, mesmo que mínima, de um cenário como esse voltar ao Brasil, o Banco Central tem feito apelos à memória do brasileiro em discursos e documentos divulgados recentemente. "A sociedade sabe que taxas de inflação elevadas geram distorções na economia, levam a aumentos dos prêmios de risco, deprimem os investimentos, subtraem o poder de compra de salários e reduzem o potencial de crescimento da economia", disse o presidente do BC, Alexandre Tombini, na última sexta-feira. O objetivo dessa comunicação mais dura é impedir que a inflação se realimente de expectativas ruins e saia do controle. Na prática, o recado é apenas um: se o custo de vida continuar a piorar, os juros básicos (Selic) vão subir.

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Apesar de o Brasil ter conquistado a estabilidade, manter o orçamento equilibrado ainda é uma tarefa árdua. O país ostenta, em uma lista de países com indicadores confiáveis, a quarta maior inflação do planeta, e, ainda em março, o limite tolerável, de 6,5% no acumulado de 12 meses, deve estourar. Segundo levantamento feito pelo Correio, o Brasil acumula 326,37% de carestia desde o lançamento do Plano Real, em 1994. Frente a outros países, é a nação com maior alta de preços no período — com exceção da Rússia, que no ano de lançamento da moeda brasileira passou por uma grave crise que fez a inflação superar os 300%.

Quando se compara o Brasil a economias realmente estáveis, como alguns países da Europa, por exemplo, fica claro o quanto ainda é preciso ser feito. Desde 1994 até fevereiro de 2013, os preços, na média, subiram mais de três vezes no país. Isso significa que um produto que custava R$ 10 no lançamento do plano real passou a valer R$ 32,63 no mês passado. Na França, esse mesmo item, se fosse cotado na moeda brasileira, passaria a custar R$ 13,48. Na Alemanha, R$ 13,55; nos Estados Unidos, R$ 15,59.

"Temos hoje uma situação de desequilíbrio na economia brasileira que ocasiona uma dinâmica perversa entre salários e preços. Essa espiral salários-preços resulta de diversos fatores, inclusive do diferencial entre a remuneração dos trabalhadores e a produtividade", argumenta Mônica Baumgarten de Bolle, diretora do Instituto de Estudos de Política Econômica Casa das Garças (leia entrevista abaixo)

Mônica corrobora a fala de Tombini e alerta que a inflação crescente dificulta a tomada de decisões das empresas e trava investimentos. "Além disso, ela pressiona os custos e as margens do setor corporativo, estrangulando a produção. No fim, o crescimento da economia fica prejudicado pela instabilidade macroeconômica proveniente da tolerância com a inflação", diz.O economista e ex-diretor do BC Alexandre Schwartsman, mesmo crítico à política econômica atual, afirma que "o Brasil está muito distante da situação de 20 ou 40 anos atrás. A inflação é incomparavelmente mais baixa e, apesar de haver muito a melhorar, as instituições brasileiras são incomparavelmente melhores", observa.