Título: E nem começou...
Autor: Craveiro, Rodrigo
Fonte: Correio Braziliense, 25/03/2013, Mundo, p. 12
Ainda faltam oito dias para a largada oficial da campanha pela sucessão de Hugo Chávez, mas a polarização entre governistas e opositores se acirra, a três semanas da disputa pelo Palácio Miraflores
A morte do presidente Hugo Chávez polarizou ainda mais um país marcado na última década e meia por fortes tensões políticas. A três semanas da eleição de 14 de abril, quando será escolhido o sucessor, os governistas transformam o líder da Revolução Bolivariana em mito e usam seu nome sem reservas em busca de votos para Nicolás Maduro, chefe de Estado interino e candidato ao Palácio de Miraflores. A oposição, por seu lado, denuncia abusos da campanha adversária e reconhece: uma vitória nas urnas será “muito mais difícil, herOica, épica e espiritual”, como definiu Henrique Capriles Radonski, escalado para enfrentar o chavismo uma vez mais.
“Chávez está impactando as eleições e será um fantasma presente em todo o processo”, analisa, em entrevista ao Correio, Carlos António Romero Méndez, doutor em ciência política pela Universidad Central de Venezuela (UCV). Ele prevê “mais polarização” e “mais problemas” na sociedade. “Com o desaparecimento do presidente, o debate político se reaqueceu, ainda que o povo não tenha entrado nesse clima. A violência está nas elites políticas”, diz Méndez.
Enquanto Maduro se apega à figura do mentor, Capriles tenta desmoralizar o rival e o chavismo. “Eu me pergunto como seria esse candidato se não abusasse do poder, se não utilizasse os recursos dos venezuelanos, se não usasse a imagem do presidente, a PDVSA (estatal de petróleo), os ministérios e governos, se não chantageasse (...) Não seria nada. Uma vez, Chávez disse que nós (da oposição) nada somos, e não se deu conta de que tinha o ‘nada’ bem perto dele”, disparou Capriles, durante comício realizado no departamento (estado) de Aragua.
A campanha começará oficialmente dentro de oito dias. No entanto, a caça ao eleitorado já é intensa. “Se, por um lado, o chavismo quase sempre apostou na polarização, estamos vendo agora um Capriles mais duro e combativo”, afirma o cientista político Miguel Ángel Martínez Meucci, professor da Universidad Simón Bolívar, em Caracas. Segundo ele, essa situação, aliada à ausência de Chávez, provoca em governistas e opositores a sensação de que a eleição pode acabar sendo bem disputada, intensificando ainda mais a polarização. “Não se descartam incidentes pontuais de violência, e a probabilidade de que eles ocorram aumentará, caso Capriles e Maduro emparelharem nas pesquisas”, acrescenta Meucci.
Para o opositor Tony De Viveiros, ex-professor de ciência política da Universidad Simón Bolívar, a “encenação” em torno dos atos fúnebres revela a intenção de produzir benefícios políticos para o chavismo. “A intenção dos governistas foi exaltar o culto à personalidade de Chávez até um nível religioso e convertê-lo em santo popular. As comparações com Jesus Cristo e a repetição de que sua morte foi um sacrifício pessoal pelo bem-estar do povo indicam isso”, afirma.
Quando a reportagem do Correio esteve em Caracas, no terceiro dia do velório, o próprio Maduro deixou claro que a campanha eleitoral começara a poucos metros do caixão do líder. O candidato caminhou entre os chavistas enlutados no Paseo de los Próceres, próximo à Academia Militar de Caracas. “O oficialismo usará ao máximo a imagem de Chávez para reforçar a conexão emocional entre seus seguidores e Maduro, como herdeiro, a fim de gerar lealdade e coesão entre os partidários. O luto será uma arma para atacar a oposição, quando ela questionar a obra do governo”, prevê De Viveiros.
De acordo com ele, o presidente interino tem construído sua candidatura por meio do uso indiscriminado dos recursos do Estado. “A seu favor, ele conta com todos os poderes públicos e com o apoio de 20 dos 23 governadores e das Forças Armadas”, lembra. “Maduro se vale das bases de dados de funcionários públicos e de beneficiários dos programas sociais para obrigá-los a se dirigirem aos centros de votação. Com essa brutal desvantagem, a luta de Capriles será épica, uma batalha de Davi contra Golias, difícil de ser vencida numa campanha tão curta.”
Morador de San Cristóbal, a 811km de Caracas, o estudante Ángel Morales, 24 anos, vê um futuro político sombrio para o país. “A polarização está mais marcada que antes e a eleição é imprevisível”, comenta. Segundo ele, na última sexta-feira, o Hino Nacional de Cuba chegou a ser executado durante um ato político transmitido pela TV em cadeia nacional. “O governo possui a vantagem para seguir na Presidência, mas, caso manipule mais as coisas antes de 14 de abril, o inesperado poderá ocorrer.”
Sob condição de anonimato, uma jornalista de 55 anos, moradora de Caracas, disse temer irregularidades na votação. “Espero que Capriles vença, mas o governo não aceitará e fará qualquer coisa para permanecer no poder. Acredito em fraude, compra de votos, chavistas tentando assustar os eleitores, além de abusos do Plano República — o sistema de custódia dos centros de votação por parte de militares”, afirma. Ela vê grande chance de Capriles surpreender nas urnas. “A diferença de votos para Maduro, em outubro, foi de 2 milhões. Mas houve muita abstenção. Desta vez, sem Chávez, Maduro não tem o mesmo impulso.”