Correio braziliense, n. 20970, 22/10/2020. Brasil, p. 7
Morre médico voluntário
Bruna Lima
Augusto Fernandes
22/10/2020
Um médico de 28 anos participante dos estudos da vacina de Oxford, no Rio de Janeiro, e que atuava na linha de frente de combate à covid, morreu em decorrência da doença. A morte aconteceu na última quinta-feira (15/10), mas a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) apenas confirmou o óbito ontem. Tanto os dados pessoais do voluntário quanto os das investigações sobre o caso são mantidos em sigilo, mas as informações são de que ele teria recebido placebo.
Depois de confirmar a morte do voluntário, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) anunciou que os ensaios clínicos do imunizante não serão paralisados. O presidente da agência, Antônio Barra Torres, disse que o Comitê Internacional de Avaliação de Segurança que analisa a eficácia de todas vacinas em teste para o novo coronavírus sugeriu que o Brasil continuasse com o estudo. A Anvisa informou que foi notificada do caso na segunda-feira (19).
Segundo Antônio Torres, a Anvisa ainda não tinha informações para confirmar se o voluntário recebeu uma dose da vacina de Oxford ou de placebo. "No protocolo da vacina está prevista a confidencialidade ética em relação a tudo que envolve os voluntários participantes de testes. Os termos de confidencialidade são patenteados, então determinadas informações são imediatamente passadas e outras, não. Daí a escassez, pelo menos neste momento, de maiores detalhes", explicou o presidente da Anvisa.
Enquanto a informação não for confirmada, o Comitê Internacional de Avaliação de Segurança não vai recomendar a paralisação dos testes, segundo a Anvisa. "Tivemos a notificação do comitê internacional independente, que concluiu pela possibilidade do prosseguimento dos testes. De posse dessa informação, a vacina permanece em contínua análise e, no momento, os testes prosseguem", afirmou Torres, que lamentou a morte. "A nossa palavra pessoal é de solidariedade para com a família desse brasileiro, desse volutuário que faleceu. É um momento muito difícil e muito delicado. Portanto, nos solidarizamos com a família", disse Torres.
Em 8 de setembro, o estudo clínico da vacina de Oxford teve de ser interrompido em todo o mundo após uma voluntária britânica que recebeu uma dose do imunizante apresentar uma inflamação na medula espinhal, conhecida como mielite transversa.
Os testes foram retomados quase uma semana depois, em 14 de setembro, depois de um processo de revisão feito pelas autoridades à frente da elaboração da substância. Os especialistas constataram que não ficou comprovado o nexo de causalidade entre a vacina e a infecção.
Estudo randomizado
Responsável por conduzir os testes no Rio de Janeiro, o Instituto D'Or de Pesquisa e Ensino (Idor) não informou ao Correio se o voluntário recebeu a dose do imunizante ou placebo. Isso porque os estudos seguem a metodologia randomizada, ou seja, quando se controla dois grupos em situações semelhantes, em que um recebe a dose da substância avaliada e o outro, não. "Seguindo normas internacionais de pesquisa clínica e respeitando os critérios de confidencialidade dos dados médicos, não podemos confirmar publicamente a participação de nenhum voluntário no estudo clínico com a Vacina de Oxford", informou o Idor. No entanto, esclareceu que as avaliações incluem 20 mil participantes nos testes ao redor do mundo e que "todas as condições médicas registradas foram cuidadosamente avaliadas pelo comitê independente de segurança, pelas equipes de investigadores e autoridades regulatórias locais e internacionais".
Apesar da confirmação da morte de um dos candidatos brasileiros, o Idor descartou "qualquer dúvida com relação à segurança do estudo". No Brasil, até o presente momento, já foram vacinados aproximadamente oito mil voluntários.
O voluntário na testagem da vacina da AstraZeneca no Brasil era um médico carioca, recém-formado, que trabalhava na linha de frente do atendimento à covid-19 em hospitais públicos e particulares no Rio de Janeiro. Ele adoeceu em setembro e morreu na quinta-feira, de complicações da doença. Em nota, a Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde o médico se formou em julho do ano passado, disse que, embora ele tivesse acabado de se diplomar, "não poupou esforços para atuar no enfrentamento da pandemia".