O Estado de São Paulo, n.46309, 01/08/2020. Internacional, p.A18

 

Itália vira o jogo no combate à covid-19

01/08/2020

 

 

Antes epicentro da pandemia, país reage com medidas rígidas de isolamento social e se torna um modelo para as outras nações

Quando o coronavírus explodiu no Ocidente, a Itália tornou-se o seu epicentro em um clima de verdadeiro pesadelo, um lugar a ser evitado a todo custo, e um símbolo, nos Estados Unidos e em grande parte da Europa, de contágio incontrolável.

"Vejam o que está acontecendo com a Itália", disse aos repórteres o presidente Donald Trump no dia 17 de março. "Não queremos nos encontrar em uma situação como essa". Joe Biden, o provável indicado democrata às eleições, ressaltou os hospitais superlotados da Itália como prova de sua oposição ao "Cuidados Médicos para Todos" em um debate presidencial. "Neste momento, não está funcionando na Itália."

Poucos meses depois, os Estados Unidos ultrapassariam a Itália em mortes e os países europeus, que antes olhavam com presunção para o país, enfrentam novos surtos e começam a impor novas restrições e pensam até em decretar mais uma vez um lockdown.

O primeiro-ministro Boris Johnson, da Grã-bretanha, anunciou ontem o adiamento de flexibilização na Inglaterra dado o aumento do contágio no país. Até a Alemanha, elogiada por sua eficiente resposta e rigoroso rastreamento dos contatos, advertiu que o comportamento relapso está provocando uma nova onda de casos.

E a Itália? Seus hospitais quase não têm pacientes de covid19. O número de óbitos diários pelo vírus na Lombardia, a região norte que suportou o impacto mais violento da pandemia, estão em torno de zero. O total de novos casos despencou e é "um dos mais baixos da Europa e do mundo", afirmou Giovanni Rezza, diretor do departamento de doenças infecciosas do Instituto Nacional de Saúde. "Fomos muito prudentes".

Apesar de o aparecimento de um pequeno surto nesta semana, os italianos estão otimistas sobre a resposta ao controle do vírus – enquanto os especialistas da área de saúde alertam que a complacência continua sendo o combustível da pandemia. Como eles sabem, o quadro pode mudar a qualquer momento.

A maneira como a Itália conseguiu passar de um excluído global a modelo de contenção do vírus tem novas lições para o resto do mundo, inclusive os Estados Unidos, onde a doença que nunca esteve sob controle, agora devasta o país.

Após um começo conturbado, a Itália consolidou ou pelo menos preservou a recompensa por um rigoroso isolamento graças a uma mescla de vigilância e experiência médica, adquirida da maneira mais dolorosa.

Seu governo se pautou pelas recomendações de comissões científicas e técnicas. Os médicos, os hospitais e as autoridades de saúde reúnem mais de 20 indicadores diários sobre o vírus e os remetem às autoridades regionais, que então os mandam para o Instituto Nacional de Saúde.

O resultado é um panorama semanal da situação da saúde no país que dá base para as decisões estratégicas.

Nesta semana, o Parlamento aprovou em votação a prorrogação dos poderes de emergência do governo até 15 de outubro, depois que o primeiro-ministro Giuseppe Conte disse que a nação não poderia baixar a guarda, "porque o vírus continua circulando".

Estes poderes permitem que o governo mantenha as restrições e reaja rapidamente – inclusive com o fechamento – a novas aglomerações. "Há uma variedade de cenários na França, Espanha, Bálcãs, o que significa que o vírus não desapareceu completamente", afirmou Ranieri Guerra, médico italiano que é o diretor-geral assistente de iniciativas estratégicas da Organização Mundial da Saúde. "Ele pode voltar a qualquer momento."

Especialistas em saúde do país afirmam que a ausência de casos graves indica um decréscimo do volume de infecções, porque apenas uma pequena porcentagem dos infectados adoece gravemente. Até o momento, os italianos descontentes não têm sido numerosos ou poderosos o bastante para minar a trajetória de sucesso conquistada com muito trabalho no combate ao vírus, depois de um início calamitoso.

A maioria dos especialistas disse que o vírus ainda paira no ar, e enquanto o governo considera um novo decreto para a reabertura das boates, dos festivais e das viagens de cruzeiro, muitos deles imploraram o país a não baixar a guarda.  / NYT, TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA