Título: Pyongyang move míssil
Autor: Craveiro, Rodrigo
Fonte: Correio Braziliense, 05/04/2013, Mundo, p. 0
Capaz de atingir o Japão e a Ilha de Guam, artefato da Coreia do Norte foi levado para a costa leste do país
Com um alcance médio de 3 mil quilômetros, o Musudan — um míssil de fabricação própria e capaz de transportar uma ogiva nuclear — e componentes foram levados de trem, ontem, até a costa oriental da Coreia do Norte. Em tese, o artefato poderia atingir a Coreia do Sul, o Japão e, possivelmente, a Ilha de Guam, pertencente aos Estados Unidos. Fontes de inteligência sul-coreanas e norte-americanas, consultadas pela agência de notícias Reuters, confirmaram a manobra, que ameaça agravar a já delicada situação no leste da Ásia. “Pode ser destinado a realizar testes de disparos ou treinamentos militares”, declarou o ministro da Defesa sul-coreano, Kim Kwan-Jin.
Nas últimas horas, aumentaram as suspeitas de que Pyongyang estaria preparando o lançamento de um míssil balístico nos próximos dias ou semanas. Não está claro, no entanto, se o armamento em questão seria o Musudan. Citando autoridades de Washington e de Seul, a agência de notícias Yonhap, da Coreia do Sul, indicou 15 de abril como a data provável, a fim de coincidir com o aniversário de Kim Il-sung, avô do ditador Kim Jong-un e fundador da Coreia do Norte. Como medida preventiva, os EUA moveram um sistema de defesa antimísseis THAAD para Guam, que serve de base para 4,3 mil soldados norte-americanos.
“O que estamos vendo é um padrão familiar de comportamento. Lamentável, mas familiar”, afirmou o porta-voz da Casa Branca, Jay Carney, a bordo do avião Air Force One. Ele garantiu que a Casa Branca está adotando “todas as precauções necessárias” para enfrentar a escalada de ameaças. Na base de Camp Stanley, a norte de Seul, soldados americanos do 23º Batalhão Químico do Exército realizaram demonstrações de resposta a ataque, durante cerimônia que marcou a retomada de atividade da corporação, nove anos depois de ter abandonado a Coreia do Sul.
Ban Ki-moon, secretário-geral das Nações Unidas, se disse “profundamente preocupado” e pediu ao governo de Pyongyang que “reduza as tensões e se comprometa com a paz e a segurança”. “Qualquer erro de cálculo ou julgamento nessa situação pode produzir uma crise na Península Coreana que terá implicações gravíssimas”, alertou.
Sul-coreanos
Apesar da forte retórica belicista do Norte — o regime de Kim Jong-un chegou a autorizar um ataque nuclear contra os EUA —, moradores da Coreia do Sul procuram manter a calma. “Estamos com um pouco de medo, mas a vida segue normalmente”, afirmou ao Correio, por meio da internet, o estudante Anwoo Choi, 26 anos, morador de Seul. “Se um confronto ocorrer, defenderei meu país.” Ele crê que a pressão dos EUA e da ONU impede que Kim lance uma ogiva atômica.
Professor de uma escola pública no bairro de Gangnam, em Seul, e casado com uma sul-coreana, o norte-americano Wesley Swan acusou os EUA de desejarem controlar a Coreia do Norte. “Pyongyang quer um tratado de paz formal com os americanos, mas não é correspondido”, explica à reportagem, pela internet. Na opinião dele, a China tem duas opções: substituir Kim Jong-un por um dos irmãos e, então, assinar um tratado de paz com o Sul; ou tentar pôr panos quentes na crise. “Se houvesse um confronto, ele terminaria muito rapidamente e significaria o fim da Coreia do Norte”, aposta o professor de inglês Barry White, 29 anos, morador de Suwon, a 31km de Seul. Ele vê uma jogada do ditador norte-coreano para consolidar-se no poder e igualar-se ao pai, Kim Jong-il, e ao avô Kim Il-sung.
[FOTO1] Alvo dos hackers
A Coreia do Norte sofreu ontem um ataque não anunciado. Pelo menos no mundo virtual. Hackers do grupo Anonymous invadiram o portal de notícias norte-coreano Uriminzokkiri, no microblog Twitter, e o site de fotografias Flickr — usado pelo regime comunista para divulgar imagens de Kim Jong-ul. No Flickr, os invasores publicaram várias imagens, incluindo a famosa máscara de Guy Fawkes sobreposta à bandeira do país, além de uma tela preta com a frase: “Nós somos Anonymous”. O que mais chamou a atenção foi um cartaz com o desenho do ditador norte-coreano estilizado com nariz e orelha de porco, o peito à mostra e uma tatuagem do Mickey Mouse na barriga. “Kim Jong-un. (…) Ameaçando a paz mundial com mísseis intercontinentais balísticos e armas nucleares. Gastando dinheiro, enquanto seu povo morre de fome. Campos de concentração e as piores violações de direitos humanos no mundo”, afirma o texto do cartaz. No perfil do Uriminzokkiri no Twitter, os hackers exibiram a ilustração de um casal de dançarinos de tango. O portal já havia difundido um vídeo com ataques imaginários contra os EUA.