Título: Tratos à bola no Nordeste
Autor: Kleber, Leandro
Fonte: Correio Braziliense, 06/04/2013, Política, p. 5

Ao inaugurar estádio em Salvador, presidente Dilma Rousseff posa para fotos, faz discurso e ataca a discriminação

Ao lado do governador Jaques Wagner, presidente reuniu ministros, parlamentares e até o opositor ACM Neto, prefeito de Salvador, do DEM

Com o pé esquerdo e descalça, a presidente Dilma Rousseff chutou a bola ontem, ao lado do governador da Bahia, Jaques Wagner (PT), para inaugurar a arena Fonte Nova, em Salvador. Depois do pontapé inicial, Dilma afirmou, em discurso, que o país vive hoje uma democracia que respeita a diversidade e é contra a discriminação que atinge negros e mulheres. "Eu quero dizer para vocês que o Brasil é um país, hoje, em 2013, radicalmente diferente daquele país que viveu, enfrentou a Copa do Mundo de 50. Somos uma nação, hoje, com democracia consolidada, naquela época à nossa frente ainda teriam anos horríveis de fechamento e ditadura. Um país que sabe que, se é capaz de lutar pela superação da pobreza, tem de lutar pela superação de todas as formas de discriminação", disse. As declarações foram feitas em meio à polêmica envolvendo a permanência do pastor Marco Feliciano (PSC-SP), considerado racista e homofóbico, à frente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. Dilma usou o termo "ditadura" um dia depois de o senador por Minas Aécio Neves chamar de "revolução" o regime militar que se instalou no país em 1964.

O pontapé com o pé esquerdo pode ter sido precaução. Em fevereiro, a presidente fissurou o dedão do pé direito e teve de usar um calçado especial para dar expediente no Palácio do Planalto. A petista, torcedora do Internacional, no Rio Grande do Sul, e do Atlético Mineiro, em Minas Gerais, escreve com a mão direita. Nas demais inaugurações de estádios nos últimos meses — Castelão, em Fortaleza, e Mineirão, em Belo Horizonte — ela chutou a bola calçada e com o pé direito.

Em uma breve entrevista, a presidente disse que Salvador "está de parabéns", e o estádio é motivo de orgulho. "Mostra que o Brasil é um país que sabe não só jogar futebol, mas receber". A presidente ressaltou a importância da parceria entre os governos federal, estadual e municipal, este último representado pelo prefeito ACM Neto (DEM), ferrenho opositor do Planalto nos tempos em que era deputado federal. A cerimônia foi acompanhada de perto também por ministros, parlamentares e pelos trabalhadores da obra, que estavam sentados na arquibancada em frente ao palanque montado no gramado.

Dilma afirmou, ainda, que o Brasil vai dar um show não só dentro dos campos, mas também na organização dos eventos. "Queria dizer que esse país só é respeitado no cenário internacional porque se respeita e, por isso, talvez sejamos o país que melhor utilizou o crescimento econômico para elevar o padrão de vida de sua população. Essa é uma obra de respeito à população de Salvador e ao Brasil, porque receber a Copa das Confederações, a Copa do Mundo, as Olimpíadas, é algo que honra a todos nós brasileiros. Eu tenho certeza que nesse ano e no ano que vem nós vamos dar um show, um show de bola, também fora das nossas quatro linhas. Daí a importância desse estádio", afirmou.

Em clima festivo, a presidente ainda elogiou a estrutura da arena, com 50 mil lugares cobertos, 71 camarotes, 94 banheiros, 39 quiosques de alimentação, restaurante panorâmico, área de imprensa, estacionamento coberto com aproximadamente 2 mil vagas e um museu do futebol. "Essa é a primeira arena multiuso. Eu acredito que o Brasil, nesta Copa, está dando um passo importante para transformar a preparação para a Copa também num legado para a população. Uma arena multiuso, que pode ser usada shows, espetáculos, obras culturais, é muito importante", disse.

A construção da arena Fonte Nova foi feita sob o regime de PPP (parceria público privada) entre o Estado da Bahia e um consórcio formado pelas empreiteiras Odebrecht e OAS. O custo total da obra foi de cerca de R$ 700 milhões, valor superior ao previsto inicialmente (R$ 591 milhões).

"O Brasil é um país radicalmente diferente daquele que enfrentou a Copa do Mundo de 50. Um país que sabe que, se é capaz de lutar pela superação da pobreza, tem de lutar pela superação de todas as formas de discriminação" Dilma Rousseff, presidente