Título: Teste é 'ação sem volta'
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 11/02/2005, Internacional, p. A7
Eric Heginbotham é especialista do Conselho de Relações Exteriores, em Washington. Pesquisador da política coreana, chinesa e japonesa, Heginbotham foi chefe de uma força-tarefa do Conselho sobre as relações entre Washington e Pyongyang.
O senhor acredita que os norte-coreanos possuam algum tipo de armamento nuclear?
- Sim. O consenso é que a Coréia do Norte já possui armamento nuclear utilizável. Hoje em dia, não é muito difícil conseguir isso, pelo menos se estamos falando de armas cruas. Pyongyang ainda não fez qualquer teste mas é bem possível que tenha armas nucleares.
Os testes são considerados essenciais para qualquer programa nuclear que queira realmente ser funcional. O fato de os norte-coreanos ainda não terem feito testes não mostra que estão blefando?
- O teste não é um bom indicador nesse caso. Há uma série de razões políticas para que os norte-coreanos não façam o teste.
Quais?
- O teste seria uma ação sem volta para as negociações. Não acho que a Coréia do Norte esteja disposta a tanto. Poderia provocar uma reação mais dura da China e também dos Estados Unidos. Iria ultrapassar a linha vermelha das relações com Washington e Pequim.
E por que uma declaração como a de hoje [ontem]? Por que nesse momento?
- Há várias explicações. É difícil pensar o que os norte-coreanos têm em mente. A explicação de que estão construindo uma forma de dissuadir o que percebem ser uma política agressiva dos EUA não pode ser posta de lado. Mas não é a única explicação. Os norte-coreanos ainda estão em uma posição em que podem recuar. Não fizeram o teste. Ainda podem voltar às negociações. Haverá uma pressão internacional para isso e as conversas devem ser retomadas. A declaração de hoje [ontem]é parte estratégica das negociações. Uma tentativa de fortalecer a posição de Pinongueang sem ultrapassar a linha vermelha do teste.
Como o senhor vê a postura do atual governo americano com relação ao programa nuclear norte-coreano?
- O governo George Bush está demorando muito a lidar de fato com o problema. Já deveria ter feito isso e com outros programas que estão em situações semelhantes. Houve progressos nos últimos meses, mas não uma mudança de comportamento da Casa Branca sobre esse problema. Essa declaração pode mexer um pouco com as coisas.
Em que sentido?
- O fato de a Casa Branca não ter estabelecido uma comunicação com os norte-coreanos de imediato no primeiro mandato foi um erro. Isso fortaleceu a linha-dura na Coréia do Norte. Também houve uma postura muito rígida dos Estados Unidos com relação aos termos de um possível acordo. Tudo isso limitou a habilidade de Washington de lidar com o problema. Isso pode ser repensado.
A prioridade que o atual governo americano dá à chamada guerra contra o terrorismo está atrapalhando o controle da proliferação nuclear?
- As prioridades do atual governo americano são bastante questionáveis. Dado que o Irã e a Coréia do Norte são ameaças iminentes, a decisão de invadir o Iraque foi errada. Foi errada também por uma série de outras razões, mas dado o atual problema que os programas nucleares norte-coreano e iraniano podem causar, a prioridade no Iraque me parece ser equivocada. A situação exige hoje muita atenção e capital político do presidente. Há o argumento do efeito demonstrativo, muito popular na Casa Branca. A idéia de dar o exemplo. Mas não é o caso.