Título: Entusiasmo em zona de incerteza
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 11/09/2008, Opinão, p. A8
A economia brasileira ofereceu ontem mais uma demonstração de como produzir notícias auspiciosas num ambiente tisnado por crises, temores e abalos. Enquanto, um dia antes, os mercados financeiros (inclusive a Bovespa) se deparavam, espantados, com a espiral descendente no movimento das bolsas, informou-se o tamanho do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) do segundo trimestre em relação ao mesmo período do ano passado: 6,1%. O índice foi maior do que o esperado. Em relação ao primeiro trimestre, cresceu 1,7%. Os mais otimistas porta-vozes do mercado projetavam, no máximo, 1,3%. Em outras palavras, as bolsas podem ir mal, o espectro da crise americana segue rondando os mercados financeiros, mas os números da economia real do Brasil continuam bons.
Da galeria de boas notícias, constam ainda os dados do investimento em produção, também anunciados ontem pelo IBGE. A chamada Formação Bruta de Capital Fixo cresceu notáveis 16,2% em relação ao mesmo trimestre do ano passado e 5,4% frente ao primeiro trimestre. Tais índices significam que os empresários continuam investindo. Mais ainda, que a capacidade de produção permanece em rota elevada, o que contribui para a construção do ideal de crescimento econômico sem pressão inflacionária. A taxa de investimento ficou em 18,7%, informou o IBGE. Isso importa porque a evidência do investimento permite o atendimento do consumo com o aumento da oferta de produção ¿ uma conjugação de astros capaz de manter a economia aquecida sem resultar na elevação de preços.
Considerem-se ainda outros sinais de redução da inflação. A primeira prévia do IGP-M revelou estabilidade nos preços. Desde o início de agosto, já houve deflação tanto nos IGPs quanto no preço dos alimentos do IPCA, o índice para o qual olha o Banco Central. Esse movimento constitui um reflexo da forte queda das commodities, que prejudica as bolsas mas ajuda o controle inflacionário. Alvíssaras.
Se as evidências parecem animadoras, lamente-se o ingresso do ciclo de aumento de juros promovido pelo Banco Central. Se prevalecer a tendência detectada nas últimas decisões do BC (ontem se promoveu o quarto aumento consecutivo, desta vez em 0,75 ponto percentual), pode-se vislumbrar, desde já, a contratação de uma indesejada redução do ritmo de crescimento do PIB brasileiro ¿ no fim deste ano ou no início do próximo, pouco importa, o fato é que, embora o Brasil não vá parar de crescer, deverá reduzir a velocidade do vôo verificada até aqui. Os argumentos do BC ainda serão detalhados, mas nem as (agora modestas) perspectivas inflacionárias, nem os temores decorrentes da crise americana justificam a insistência com uma rota tão conservadora.
Enquanto o freio imposto pelo BC não se confirma, porém, resta comemorar a posição privilegiada da economia brasileira. Conforme mostrou reportagem do Jornal do Brasil, publicada do último domingo, o país é hoje um oásis de entusiasmo num mar de incertezas. O ânimo estrangeiro segue com intensidade mais apropriada às torcidas organizadas, descreveram os repórteres Osmar Freitas Jr e Leda Rosa. Para Jim O¿Neil, economista do banco de investimentos Goldman Sachs e criador da sigla Brics ¿ referente ao Brasil, Rússia, Índia e China como maiores potências emergentes ¿ até 2040 teremos uma economia mais robusta do que o Reino Unido.
Há muito o que fazer para que prognósticos como este se confirmem no futuro. Por enquanto, contudo, o crescimento econômico, o ambiente de estabilidade, os sinais externos de confiança e a pujança do mercado interno comprovam os sinais de descolamento diante da turbulência internacional.