Título: Irã fecha com Moscou
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Fonte: Jornal do Brasil, 28/02/2005, Internacional, p. A8
País vai receber combustível nuclear da Rússia
TEERÃ - Rússia e Irã assinaram ontem um acordo em que Moscou se compromete a fornecer combustível nuclear a Teerã, em uma negociação que foi duramente criticada por Washington. O acordo abre caminho para a construção de um reator atômico no país persa, em 2006.
O acordo, feito na usina atômica de Bushehr, Sul do Irã, pelos chefes de energia nuclear dos dois países, ocorreu em um momento em que os iranianos sofrem pressão internacional, em especial dos Estados Unidos, que acusam o regime dos aiatolás de desenvolver armas nucleares.
O Irã, segundo maior produtor de petróleo da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), nega a acusação e tem recebido apoio de Moscou, que espera receber dividendos no programa de expansão atômica iraniano.
- Este é um fato muito importante para fortalecer os laços entre os dois países, e em um futuro próximo especialistas russos vão ser enviados a Bushehr, a fim de equipar a estação de energia - disse Alexander Rumyantsev, chefe da agência russa de Energia Atômica, em um pronunciamento na televisão estatal iraniana.
Uma parte crucial do acordo obriga Teerã a repatriar para a Rússia o combustível nuclear utilizado pelo programa iraniano. Moscou espera que isso amenize a preocupação de Washington de que o Irã possa transformar o combustível gasto em plutônio e usá-lo na produção de armas.
A Agência Internacional de Energia Atômica (IAEA), que investiga o projeto nuclear iraniano há mais de dois anos, disse que vai observar com cuidado o uso dado ao combustível por Teerã.
Segundo a porta-voz Melissa Fleming, os inspetores vão ''monitorar de perto o uso e o destino do combustível'' como parte do projeto de segurança da agência, que tem como objetivo assegurar que o material nuclear não seja usado na fabricação secreta de armas.
As operações em Bushehr terão início em meados de 2006.
- Planejamos inaugurar o espaço físico da usina no fim de 2006. Pelo menos seis meses antes, queremos enviar a primeira leva do combustível - explicou Rumyantsev, à agência Itar-Tass.
Desentendimentos sobre o envio da carga atrasaram as negociações - o acordo estava previsto para ser assinado no sábado - porque os iranianos queriam que a Rússia enviasse o material antes do que foi definido.
Segundo Teerã, o atraso foi técnico e não teve relação com a pressão feita por Washington, em especial no encontro do presidente americano George Bush, com o da Rússia, Vladimir Putin, em Bratislava, na Eslováquia, na semana passada.
- Meu entendimento é que as articulações internacionais não tiveram efeito algum neste contrato - disse Mohammad Saeedi, líder da Organização de Energia Atômica do Irã.
Em operação, Bushehr produzirá mil megawatts de eletricidade. Iniciado antes da revolução iraniana de 1979 e bastante danificado entre os anos de 1980 e 1988, durante a guerra Irã-Iraque, o projeto foi resgatado com ajuda russa e custou cerca de US$ 800 milhões.
O Irã, que negocia, com a União Européia, um acordo que garanta os fins pacíficos do programa nuclear desenvolvido no país, anunciou planos de construir outras usinas, com o objetivo de gerar 7 mil megawatts vindos de energia nuclear até 2021.