Título: Incerteza volta a derrubar bolsas
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 23/09/2008, Economia, p. A19

Dúvida sobre ação do Congresso no pacote de socorro nos EUA gera depressão nos mercados.

A incerteza sobre o modelo final do pacote de auxílio a bancos e entidades financeiras no Estados Unidos fez as bolsas americanas fecharem em baixas acima de 3%, o que levou o pregão da Bovespa, que durante boa parte do dia operara em baixa em torno de 0,9%, a fechar em queda de 2,86%, com o índice Ibovespa caindo para 51.540 pontos.

O arrefecimento do entusiasmo demonstrado pelas bolsas nos últimos pregões da semana passada quanto à ajuda do Tesouro americano para salvar o sistema da bancarrota foi atribuído à intenção do Congresso americano de deixar sua marca no conjunto de medidas, especialmente quanto à necessidade de redução de gratificações e salários altíssimos pagos a executivos e funcionários de instituições que estão em situação frágil. A aprovação do plano de US$ 700 bilhões para garantia de créditos podres concedidos por instituições financeiras está em debate nesta semana no parlamento americano.

Volatilidade

O pregão brasileiro ontem ca- racterizou-se pela volatilidade que também atingiu outros mercados. Pela manhã e no início da tarde, a ação nominativa da Petrobras, por exemplo, chegou a estar em alta superior a 3%, tendo em vista grandes oscilações no preço do petróleo, com valorização de 0,23%. O preço do barril do combustível chegou a registrar valorização de 24,34%, cotado a US$ 130, mas depois caiu para US$ 120, em alta de 15,6%. mesmo assim, a alta foi a registrada em um único dia.

O reflexo da alta do combustível se fez sentir sobre a cotação da Gol, que teve baixa de 6,8%. No entanto, a tendência dos preços é para baixa, pois os contratos no mercado futuro para entrega em novembro fecharam o dia com o barril cotado a US$ 109,37. A bolsa de Wall Street fechou em queda de 3,27%, determinada, especialmente, pela redução da cotações dos papéis de empresas do setor financeiro. Na mesma linha, a bolsa de Londres teve recuo de 1,42% na rentabilidade e a de Frankfurt fechou em queda de 1,32%.

Paralelamente, O Banco Central Europeu anunciou ontem novo leilão para injetar mais US$ 40 bilhões no mercado interbancário. Isto ocorre depois de a instituição, na semana passada, ter colocado US$ 80 bilhões no meio circulante para atender à demanda de crédito, além de ter disponibilizado 125 milhões de euros para instituições da União Européia. ­ O mercado de um modo geral ainda quer saber se o que foi prometido vai ser efetivamente implantado. Foi essa expectativa que mais influenciou os negócios ­ comentou Márcio Cardoso, diretor de operações da Corretora Título.

Dólar em queda

O mercado de câmbio registrou queda de 2,12% na cotação do dólar, que fechou a R$ 1,792, depois de, em meio às turbulências da semana passada ter chegado ao patamar de R$ 1,93. Operadores do mercado acreditam que a taxa pode cair mais, em vista do provável aumento da diferença das taxas de juros brasileira (13,75% ao ano) e a americana, de 2% ao ano. Com isto, a tendência é de manter-se o afluxo de capital para o Brasil em busca da rentabilidade maior propiciada pela Selic.

Cautela & tacada

A instabilidade que levou as bolsas a uma conjuntura de baixa nas últimas semanas não atinge a todos indistintamente. Entre os grandes fundos de pensão, embora a palavra de ordem seja manter a cautela, sua característica de operação a longo prazo indica que o momento é adequado para fortalecimento das carteiras de ações na maré de preços baixos. ­

Uma velha regra do mercado é comprar ao som dos trovões e vender quando tocam os violinos ­ diz Sérgio Wilson Fontes, diretor -executivo do conselho diretor da Fundação Real Grandeza, que administra o fundo de pensão dos empregados de Furnas, Respeitando o princípio, e de olho no longo prazo, a Fundação deu uma "tacada": um dia antes da euforia que levou os dois últimos pregões a altas recordes, comprou R$ 70 milhões em ações, que, no total representam cerca de 20% do patrimônio de R$ 6 bilhões. ­ A média no mercado é de aplicação de até 36% do patrimônio em ações. Somos conservadores, mas, baseados em estudos técnicos, aproveitamos a oportunidade - diz Fontes.

Demanda em alta

André Simões, gestor de fundos da Modal Asset avalia que o quadro ainda é preocupante e brinca dizendo que o governo Bush não pediu um cheque em branco, mas um banco em branco ao Congresso. ­ Nesse quadro, a palavra chave para nós é cautela ­ disse ele, confirmando que a demanda por crédito na praça elevou as taxas de remuneração dos Certificados de Depósito Bancário para até 106% do valor de face.