Título: Exportações mantêm aceleração
Autor: Rafael Rosas
Fonte: Jornal do Brasil, 28/02/2005, Economia & Negócios, p. A17
Mercado externo aquecido eleva vendas brasileiras e superávit comercial, mesmo com dólar e preço de commodities em queda
A gritaria do setor exportador contra a cotação do dólar continua, assim como a constatação de que os preços das principais commodities vendidas pelo Brasil estão em queda desde o ano passado. Ainda assim, a balança comercial do país segue registrando resultados expressivos em 2005, a despeito das previsões de desaceleração do superávit este ano, depois do recorde de US$ 33,693 bilhões ano passado.
Do começo do ano até a terceira semana de fevereiro, a balança acumula superávit de US$ 4,221 bilhões, com exportações de US$ 12,637 bilhões e importações de US$ 8,416 bilhões. Nos dois primeiros meses de 2004, o acumulado era de US$ 3,555 bilhões. Ou seja, mesmo sem o resultado da última semana do mês, o saldo agora já é maior.
Para Frederico Estrela, da Consultoria Tendências, o diagnóstico de um crescimento mundial ainda forte este ano não estava sendo esperado pelo mercado. Embora projetasse avanço econômico global em 2005 de 3,5%, ele não descarta uma alta mais expressiva.
- Até o momento, os resultados estão acima do esperado.
Fernando Ribeiro, economista da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex), afirma que o ritmo do comércio global é o principal fator no resultado da balança.
- Essa variável é mais importante que o câmbio - enfatiza.
Se nos últimos meses do ano passado se observava maior avanço entre as importações que entre as vendas externas, o processo se inverteu. Nas três primeiras semanas de fevereiro, a média diária de exportações foi de US$ 432,8 milhões, 36,2% maior que a de fevereiro de 2004 e 22,1% superior à de janeiro deste ano. Já a das importações foi de US$ 262,9 milhões, 26,1% a mais que em fevereiro de 2004 e apenas 4,9% maior que em janeiro.
Estrela, da Tendências, diz que o alto índice de manufaturados na pauta de exportação é uma vantagem para o Brasil.
- Isso é importante porque, em épocas de alta da renda mundial, as compras de manufaturados aumentam - explica.
Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, em fevereiro, até a terceira semana, a média diária da exportação de manufaturados pulou 46,4% ante janeiro de 2004, de US$ 174,3 milhões para US$ 255,2 milhões.
Segundo Marcelo Nonnemberg, economista do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o crescimento da economia no ano passado chegou a 4% ao ano no primeiro semestre e acabou 2004 em torno de 3,5%. Para este ano, ele tem projeções mais modestas: 2,5% ao fim do primeiro semestre.
Ele explica ainda que o impacto do dólar - que se desvalorizou 4% este ano - é minimizado não só pelo crescimento da economia mundial, mas também pelo comportamento das moedas dos demais parceiros comerciais do Brasil.
- O comportamento do dólar é comum a quase todas as moedas. Assim, devemos olhar para todas as moedas para determinar uma taxa real de câmbio.
Os três economistas, no entanto, concordam que, cedo ou tarde, o dólar afetará o desempenho da balança. A estimativa é que os saldos comecem a cair no segundo semestre.
- Há uma defasagem no impacto do dólar. E a tendência das importações é avançar de forma consistente durante o ano - explica Ribeiro.
Nonnemberg, no entanto, faz uma ressalva:
- O investimento para exportar é alto e quando a empresa opta pelo mercado externo não volta atrás facilmente. Mesmo com margem de lucro reduzida, elas vão continuar exportando.