Título: Senado recebe número recorde de ligações dos dois lados
Autor: Correia, Karla
Fonte: Jornal do Brasil, 26/09/2008, Tema do Dia, p. A2
A discussão que vem sendo tra- vada em torno do Projeto de Lei nº 122/2006, em tramitação no Senado, acirra cada vez mais os ânimos dos movimentos religiosos e os de apoio aos homossexuais, bissexuais, travestis e transexuais. A Central de Relacionamento com o Cidadão do Senado registrou, entre 1º de janeiro até o último dia 15, 226 mil ligações para falar sobre o projeto: 78,85% das pessoas se posicionaram contra a aprovação do PL, enquanto 15,34% mostraram-se favoráveis.
Os outros 5,81% ligaram para dar sugestões. No início houve uma confusão grande. As pessoas desconheciam o teor da proposta e acreditavam que ela legalizava o casamento entre homossexuais explica Márcia Duarte, da central de relacionamento. Muitas pessoas falaram que haviam sido instruídas pela igreja que freqüentavam. Outras pelo movimento gay. O coordenador do grupo Aliadas, da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT), Igo Martini, diz que os argumentos dos movimentos religiosos contra o projeto são absurdos.
Falam, principalmente o senador Magno Malta (PR-ES), que vai aumentar a pedofilia. É um absurdo. Isso vai gerar até violência física contra os homossexuais. Os números não surpreenderam o coordenador do Programa Brasil Contra a Homofobia, Eduardo Santarelo: Apesar do avanço social, as igrejas ainda são mais articuladas que os movimento sociais.
Hipocrisia
Pesquisa realizada pelo Data- Senado nas capitais brasileiras no último mês de junho mostrou que 70% dos entrevistados são a favor da aprovação do projeto. Para o presidente da Confederação Nacional dos Evangélicos (Conae), Hélio Júnior, o resultado dessa pesquisa reflete a hipocrisia da sociedade. A sociedade também não concorda e acaba não assumindo diz. Não somos contra os homossexuais, só achamos que o direito de um grupo não pode interferir no do outro.
O pastor nega que as igrejas protestantes estejam orientando os fiéis a se manifestarem contra o projeto, mas garante que não existe equívoco no fato de acreditarem que o projeto abre precedentes para o casamento entre homossexuais. Existem brechas na lei. A partir do momento que a discriminação torna-se crime, se um padre ou pastor se recusar a casar um casal homossexual, podem ser condenado por discriminação. A principal crítica da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) ao projeto diz respeito as penalidades previstas. O projeto é muito radical. Ninguém pode ter uma opinião contrária que pode ser processado. Sem contar que as multas são altíssimas critica dom Orlando Brandes, da Comissão para a Vida e a Família da CNBB.
A presidente do Grupo Arco-íris de Conscientização Homossexual, Geiza Rodrigues, é contrária a possibilidade dos senadores mudarem o texto da lei para isentar a igreja do crime de homofobia. Mais uma vez a igreja tenta interferir no Estado. A comunidade não vai aceitar. Quando os negros conseguiram criminalizar o preconceito racial ninguém disse que a lei desrespeitava a liberdade de expressão salienta. Envolvida com a organização da próxima Parada do Orgulho GLBT-Rio, que acontecerá em 12 de outubro, dia de Nossa Senhora Aparecida, Geiza diz que o preconceito continua grave: O preconceito é tão forte quanto antes. Aliás, sou discriminada duplamente: como negra e homossexual. Sobre o fato de a parada estar marcada no dia de Nossa Senhora Aparecida, não vejo problemas.
Aliás, se eu tivesse que marcar a parada em dia que não fosse santo, não haveria parada. Já o diretor financeiro do Grupo Arco-Íris e membro da Igreja Batista, Fábio Manhães, critica a "maioria das igrejas protestantes que têm uma formação antiga". Na minha igreja assumo claramente minha homossexualidade e não há problemas quanto a isso garante.