Título: Putin e Chávez têm acordo nuclear
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Fonte: Jornal do Brasil, 26/09/2008, Internacional, p. A21
Líderes se encontram para fortalecer também colaboração militar e econômica entre nações.
O primeiro-ministro russo, Vladimir Putin, propôs ao presidente venezuelano Hugo Chávez uma cooperação nuclear com fins pacíficos, ao recebê-lo em sua casa fora de Moscou. Os dois líderes anunciaram uma série de acordos econômicos e entre os campos de investimento destacados estão altas tecnologias, a construção de maquinaria e a petroquímica.
¿ Estamos todos prontos para operar na esfera da energia atômica pacífica ¿ anunciou Putin, no início da conversa dos líderes.
O momento é propício e Chávez sabe aproveitar oportunidades. Enquanto a Rússia e os EUA vivem o momento mais tenso na sua relação desde a Guerra Fria, desencadeado pela guerra na Ossétia do Sul, o venezuelano chegou a Moscou para uma visita focada no fortalecimento da colaboração militar e econômica entre as duas nações mal-vistas por Washington. Já ontem, o governo russo anunciou um empréstimo de US$ 1 bilhão ao amigo latino para comprar armamento da Rússia.
¿ Estou feliz em destacar que o (gigante gasífero russo) Gazprom prevê lançar no fim de outubro a primeira torre de perfuração no Golfo da Venezuela ¿ anunciou o chefe de governo russo.
Putin prometeu que serão postos em andamento todos os acordos de cooperação entre as Marinhas de ambos os países e assegurou que seu país "prestará mais atenção à América Latina, que se transformou num elo importante na criação de um mundo multipolar".
A viagem de Chávez à Rússia ocorre logo depois que uma frota de navios de guerra ruma em direção à Venezuela, onde serão realizadas manobras navais conjuntas. Entre os navios que partiram da Severomorsk para a América Latina ¿ região considerada há um século por Washington como seu "quintal" ¿ está "Pedro, o Grande", um dos maiores veículos de guerra que transporta grande variedade de armas, incluindo mísseis capazes de levar ogivas nucleares.
Na semana passada, o Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS), com sede em Londres, afirmou que a Rússia usa suas relações com Caracas para enviar à Washington uma mensagem de revanche em relação ao envio de ajuda militar americana à Geórgia durante o conflito recente.
Num outro feito incomum, a Rússia enviou este mês ao parceiro latino dois bombardeiros Tu-160, que permaneceram uma semana numa base venezuelana para realizar vôos de treinamento. Chávez considerou a presença dos aviões russos na Venezuela "uma advertência para Washington".
A oferta de apoio ao venezuelano, um forte crítico ao governo americano, aparece dias depois de a Rússia bloquear um encontro entre chanceleres de grandes potências na ONU para discutir sanções contra o Irã por seu programa nuclear.
A Venezuela já firmou 12 contratos de armas com a Rússia desde 2005, por um valor total de US$ 4,4 bilhões. O país latino comprou aviões, carros de combate e fuzis de assalto e planeja adquirir agora sistemas antiaéreos, veículos blindados e aviões de combate, de acordo com informações divulgadas pelo diretor da Russian Technologies, Serguei Shemezov.
Segundo o jornal russo Kommersant, a visita de Chávez também é parte de uma campanha para as eleições municipais e regionais de 23 de novembro na Venezuela e da estratégia do líder de estreitar ao máximo a sua aliança com a Rússia contra os EUA.
Durante sua estada na Rússia, Chávez deverá fazer uma declaração de apoio ao Kremlin pela sua intervenção em agosto contra a Geórgia, sem reconhecer, entretanto, as repúblicas separatistas. Chávez também pretende propor a criação de um banco russo-venezuelano.
Agenda
Hoje, o bolivariano se encontra com o presidente russo Medvedev, e os dois assistirão a manobras das Forças Armadas da Rússia em Orenburgo, para ilustrar os crescentes laços entre ambos os países nos campos militar e no comércio de armas.
À tarde, quem recebe Chávez é o presidente francês, Nicolas Sarkozy. Apesar de o serviço de imprensa da Presidência francesa ter confirmado o encontro, não revelou quais assuntos serão tratados.