Título: Consórcio para matar
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 01/03/2005, País, p. A3

A acusação de que o prefeito de Anapu, Luiz dos Reis Carvalho (PTB), teria envolvimento no assassinato da Irmã Dorothy Stang reforça a tese da existência de um consórcio para financiar o crime. Para o padre Amaro, da coordenação regional da Comissão Pastoral da Terra, que trabalhava há 15 anos com a irmã Dorothy, a acusação sobre a participação do prefeito, pode ser o indício da existência de um grupo maior:

- Tem mais gente. Não é só aquele grupo, que foi usado como laranja. Esse inquérito está apenas começando, porque se há o consórcio, esse inquérito vai ter que se abrir mais ainda. A denúncia do prefeito pode dar resultado, pela presença de senadores, da Polícia Federal, do Exército e pela repercussão nacional e internacional do caso. Mas esse grupo é forte e poderoso, por isso é preciso fazer algo bem concreto - avaliou.

O sociólogo Lucio Flávio Pinto, autor de 10 livros sobre a região, acredita que a acusação deva ser tratada com cuidado. Segundo ele, Luiz dos Reis Carvalho sempre adotou posições contrárias às de Irmã Dorothy, mas são necessárias provas.

- Há evidências contra o prefeito pelas posições cada vez mais fortes que ele vinha assumindo. Ele tem uma posição clara contra todos aqueles que não querem a exploração de madeira. Inclusive, são os madeireiros que dão o dinheiro da campanha. Poderia-se chegar a esse consórcio, mas ainda não há provas. Há apenas evidências e elas podem ser falsas. É preciso encontrar conexões objetivas - cobrou.

O delegado da Divisão de Operações Especiais da Polícia Civil paraense, Valdir Freire, que até domingo não acreditava na participação de outras pessoas, se mostrou desconfiado com as acusações.

- Apenas dois dos três interrogados falaram sobre isso. Eles tiveram quatro oportunidades de contar. Por que só vieram falar disso agora? Será que eles só se lembraram disso agora? - desdenhou.

O encerramento do inquérito preliminar, que foi entregue na tarde de ontem a um juiz de Pacajá, aponta para um esquema restrito.

- O que a investigação policial tentou induzir é que se trata de um crime localizado entre pequenos grupos de fazendeiros, diretamente prejudicado pela atuação da Dorothy, sem uma raiz mais profunda. A polícia encerrou a investigação com os executores, o intermediário e o mandante. Pode ter acertado, porque é uma história completa, mas pode ser inconsistente - advertiu Lucio Flávio.