Título: Governo anuncia novas medidas de combate à falta de liquidez no mercado
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Fonte: Jornal do Brasil, 07/10/2008, Tema do Dia, p. A2

BRASÍLIA

O Ministro da Fazenda, Guido Mantega, anunciou ontem a oferta de parte das reservas internacionais para bancos brasileiros financiarem o comércio exterior. Em outra medida para conter a crise de liquidez, o BNDES vai liberar US$ 5 bilhões para crédito de exportação. Há ainda uma terceira medida, com o swap feito pelo Banco Central de US$ 1,47 bilhão.

Mantega disse que o governo fará apenas mudanças de aplicações mantendo as reservas internacionais elevadas, hoje acima de US$ 200 bilhões. Ele tentou exemplificar como serão usadas as reservas para apoiar o setor exportador.

¿ O governo vai trocar um ativo por um outro ativo. Eu tiro uma aplicação de um CDB (Certificado de Depósito Bancário) de um banco A e coloco no banco B, que é brasileiro, por um ativo semelhante tão rentável ou mais rentável que aquele ativo e tão seguro ou mais seguro que esse ativo ¿ explica.

O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, disse que anunciará hoje o mecanismo da linha de crédito adicional em dólar no exterior com o uso das reservas. O BC comprará títulos de bancos privados e ofertará dólares, recebendo títulos em garantia. No momento da recompra, devolve os títulos e recebe os dólares de volta. ¿ O BC vai receber títulos da República e outros títulos de primeira qualidade ¿ diz Meirelles.

Mantega acrescentou que o BNDES estaria liberando R$ 5 bilhões para a linha de crédito "pré-embarque", destinada aos exportadores antes de realizarem os embarques. Os recursos fazem parte dos R$ 15 bilhões anunciados em agosto pelo presidente Lula para capitalizar o BNDES com recursos do Tesouro Nacional.

O Banco Central também reativou uma estratégia não utilizada desde 30 de maio de 2006 e realizou negociações de US$ 1,47 bilhão em leilão de swap cambial. É uma venda futura do dólar, revertendo o que até recentemente era prática do BC.

Os contratos iniciam em 8 de outubro e vencem em 3 de novembro e foram negociados com taxa linear de 6,25%. Segundo o BC, a negociação compensa, pelo menos em parte, operações de swap reverso (posição comprada) que vencem no mesmo período. Inicialmente, a meta era negociar US$ 2,1 bilhões, com o lançamento de 41,6 mil contratos. Acabaram sendo negociados 29,5 mil contratos. Com o swap, o BC oferece proteção às empresas à variação cambial.

Meirelles disse que está atento à crise e pronto para adotar novas ações. Pela primeira vez, citou o estoque de compulsório como parte do colchão "anticrise".

¿ O BC tem mais de US$ 200 bilhões de reservas internacionais, mais de US$ 20 bilhões de posição no mercado de dólar futuro e tem uma posição substancial, mais de R$ 200 bilhões em depósitos compulsórios ¿ informa Meirelles.

Mantega avalia que a crise financeira internacional se encontra em seu momento mais agudo.

¿ Ela se tornou aguda neste momento porque só agora começaram a aparecer os ativos podres dos bancos ¿ comenta. ¿ Ela é passageira, sairemos dessa crise, mas ela não terminará tão cedo.

Ao contrário do setor internacional, Mantega afirmou que o governo brasileiro, com fortes superávits primários, o setor financeiro, as empresas e o Banco Central "estão sólidos".

¿ É claro que existem as conseqüências. Não dá para evitar que a Bolsa caia ¿ ressalva o ministro.

Medida Provisória

O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, anunciou a medida provisória estabelecendo três novas ações de combate à falta de liquidez do mercado. Meirelles explicou que o BC poderá adquirir carteiras de empréstimos de bancos brasileiros por meio do redesconto ¿ mecanismo que já é utilizado no over night, mas foi aperfeiçoado dando maior garantia jurídica às operações.

A segunda medida permite ao BC comprar carteiras em dólar dos bancos que operaram no exterior. Meireles explicou que é como fazer um empréstimo ao banco.

Será criada também a Letra de Arrendamento Mercantil (LAM) a ser emitidas pelas sociedades de arrendamento mercantil que antes podiam emitir apenas debêntures. A LAM é um título de processamento mais fácil sob o âmbito administrativo e jurídico.

As propostas foram discutidas durante a tarde de ontem no Palácio do Planalto com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, durante reunião do Conselho Político e servem para permitir que o país enfrente melhor a crise financeira internacional. Meirelles destacou que o país não enfrenta problemas de solvência em suas instituições, mas sofre com a estrita liquidez.