Título: Segundo turno de muitas emoções
Autor: Ribeiro, Fernando Taquari
Fonte: Jornal do Brasil, 07/10/2008, Eleições Municipais, p. A14
Marta quer nacionalizar campanha e reduzir rejeição. Kassab aposta na força de José Serra.
SÃO PAULO
Com campanhas competentes, Marta Suplicy (PT) e o prefeito Gilberto Kassab (DEM) chegam ao segundo turno e prometem uma das disputas mais acirradas dos últimos tempos pela prefeitura de São Paulo, como apontou o resultado do primeiro turno. A diferença entre os dois candidatos foi de apenas de 0,8% dos votos em favor do candidato democrata.
¿ Aquele favoritismo da Marta desapareceu e há um cenário de equilíbrio. O tempo de TV de ambos será igual e os debates terão muito mais audiência. Além disso, os dois partem de patamares elevados de votos, com gestões bem avaliadas pela população ¿ diz o cientista político da Tendências Consultoria Integrada, Rogério Schmitt.
O índice de rejeição da ex-prefeita, contudo, pode ser fatal para suas pretensões de retornar à prefeitura paulistana, já que não conseguiu reduzir essa taxa (35%) durante o primeiro turno.
Nacionalização
Para selar a vitória, a campanha petista deve investir na nacionalização do pleito, como adiantou na semana passada o presidente nacional do partido, deputado Ricardo Berzoini (SP). O projeto de governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva será confrontado com o de Fernando Henrique Cardoso, apoiado pelo PSDB e o DEM. Assim como nas eleições presidenciais de 2006, serão exploradas as privatizações da gestão tucano e os programas do governo Lula, como o Bolsa Família.
O presidente também retornará à campanha de Marta, depois de participar de dois comícios no primeiro turno e de estar presente em depoimentos na propaganda do rádio e da TV.
¿ Haverá um conflito nítido entre governo e oposição no nível federal. Lula deve mergulhar na campanha de Marta, enquanto o governador paulista, José Serra, potencial candidato do PSDB à Presidência da República, em 2010, irá explicitar seu apoio ao prefeito ¿ avalia Carlos Melo, cientista político pelo Ibmec/SP.
As relações de Kassab com o ex-prefeito Celso Pitta (1997/2000), que deixou a prefeitura sob escândalo, também serão armas da campanha petista. Por dois anos, Kassab foi secretário de Planejamento de Pitta, cria do ex-prefeito Paulo Maluf (1993-1997). Marta, que sucedeu Pitta, irá expor a situação em que encontrou a administração.
De olho nos índices de rejeição, a ex-ministra do Turismo ainda vai seguir com discursos voltados para a classe média, com promessas de redução de impostos.
¿ Em suma, ela precisa lembrar das ações do seu governo, como o bilhete único e os Ceus, diminuir a resistência na classe média, ao falar para população que amadureceu e está pronta para exercer o cargo, e tentar atrair o eleitorado de centro-esquerda que ainda resta no PSDB e não vota no DEM. A questão é saber se o PSDB ainda tem eleitores com esse perfil ¿ sintetiza Melo.
Kassab, por sua vez, terá a máquina municipal e estadual a seu favor. Além disso, deve ser beneficiado com a maioria dos votos de Geraldo Alckmin (PSDB) e Paulo Maluf (PP).
¿ O apoio de Alckmin será simbólico. O PSDB estará fechado com o prefeito para impedir a vitória do PT ¿ prevê o cientista político do Ibmec.
A história do processo eleitoral no município também tende a favorecer o democrata, uma vez que o eleitorado paulistano identificou no PSDB, vitorioso nas eleições municipais de 2004, um meio termo entre o PT e o malufismo. Desde a redemocratização, os dois grupos políticos sempre se revezaram no poder, ganhando as eleições com o apoio do centro. Em 2004, com a derrocada do malufismo e o alto índice de rejeição de Marta, emergiu o PSDB, hoje representado pelo democrata.