Título: A economia na hora da decisão
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 08/10/2008, Opinião, p. A8

Há muito se dizia que a forma como a economia americana se comportava prenunciava uma crise globalizada de largas proporções. O estouro da bolha das hipotecas subprime foi o indicativo de que o modelo não se sustentaria. O que não se poderia imaginar é o desenvolvimento da crise quando o estopim aceso no setor imobiliário chegasse ao explosivo setor bancário americano, frouxamente regulado e baseado em princípios do liberalismo absoluto. A explosão de gigantes como o Lehman Brothers, como se pode ver, foi cataclísmica e gerou ondas de choque que começaram a derrubar outras instituições fragilizadas pelo constante namoro com operações de risco. De rastilho em rastilho, mais detonações foram implodindo algo maior do que a credibilidade do mais poderoso ente capitalista do planeta ¿ as linhas de sustentação desse poderio baseado em uma estrutura globalizada internacional. A aposta inerente aos negócios pela ótica apenas do mercado sempre demandou mecanismos de proteção de forma a manter o sistema protegido por margens de segurança. Um deles, a Convenção da Basiléia, regula o setor bancário, mas não foi aceita justamente pelos Estados Unidos.

O Brasil vinha acompanhando a crise da arquibancada. Lastreado por fundamentos sólidos na economia, e um bom desempenho nos últimos anos, o país aparentemente estava blindado aos problemas de insolvência nos EUA, onde a volatilidade da Bolsa transformou em pó milhões de dólares amarrados em investimentos de sustentação duvidosa. A questão é que a desintegração da confiança internacional ¿ amplificada pela batalha eleitoral nos EUA, no qual o socorro governamental de US$ 700 bilhões é um monumento à ironia ¿ espalhou-se pelas redes de proteção como se fosse um vírus, corroendo a capacidade dos países de permitirem que os próprios players regulassem as suas ações. De uma hora para outra, o aço virou vidro e tudo tornou-se frágil. Era natural que em algum momento esse tsunami batesse nas costas brasileiras. Para um governo que vem diuturnamente pregando regras de controle de metas inflacionárias como forma de prevenir o país dos soluços alheios ¿ procedimento que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva endossou, mesmo com os problemas internos que acarreta ¿ essa era a hora da decisão. Afinal, quando os mercados perdem a noção do próprio valor, saem de cena os investidores tradicionais para entrar em ação os tubarões da especulação.

Nesse ponto, as medidas adotadas pelo Brasil para proteger os exportadores diante da falta de dólares no mercado é uma decisão correta do ponto de vista técnico, embora tenha deixado a impressão de que, mesmo com todo o discurso, a prática acabou sendo mais perversa. Ontem, com sinais mais pessimistas ainda, a possibilidade de o Brasil sofrer um ataque especulativo de grande monta passou a exigir a intervenção contínua do Banco Central. De espectador na arquibancada, o país foi forçado a entrar em campo e participar do jogo, no lado sob pressão do placar.

É preciso saber que outros mecanismos mais o governo tem para sustentar a segurança. Os sinais não são bons, como revela a avaliação do Federal Reserve de que a crise continuará em 2009 e a percepção de que o pacote de dinheiro injetado pelo Tesouro americano nos bancos foi insuficiente para conter a queda dos dominós. Há expectativa, então, de que o contribuinte americano novamente seja chamado a pagar a conta da aventura, com um valor ainda indefinido. Para o governo de George Bush, trata-se de um terrível legado. Além de duas guerras, da gigantesca dívida interna, o atual presidente se despede do segundo mandato como o governante que conseguiu dissolver a supremacia militar e política - a Pax Americana - tanto quanto a própria economia mundial. Para as autoridades brasileiras, o desafio é gigantesco.