Título: A opção Heloisa Helena
Autor: Milton Temer
Fonte: Jornal do Brasil, 01/03/2005, Outras Opiniões, p. A11

O PFL, com o PSDB, foi defenestrado pelo voto de 52 milhões de brasileiros que deram um basta ao mandarinato neoliberal posto em prática pelas duas legendas

De falta de assunto é que o jornalista não pode reclamar no governo Lula. Dos politicamente condenáveis, aos produzidos por atabalhoamento ou incompetência, o fluxo de temas polêmicos é incessante.

Entre os vários itens na pauta - ''kit massacre'', depois da porta arrombada, no Pará; lucro sempre crescente dos bancos; incontinência verbal no alto escalão; para além dos cortes na área social do Orçamento e da infindável novela das ''reformas'' -, o destaque vai para a sucessão presidencial de 2006.

O assunto foi reaquecido em artigo do senador Jorge Bornhausen, aqui no Jornal do Brasil. Eufórico, por conta de cinco por cento apontados na pesquisa CNT-Sensus, ele justificava o lançamento da candidatura Cesar Maia à Presidência da República, como um caminho de ressureição.

Ora, cinco por cento por cinco por cento, resta uma questão decisiva sobre a citada pesquisa. Por que, nos cenários nela apresentados, só constam nomes de candidatos de centro ou de direita, no contraponto à candidatura Lula? Por que não foi incluída a senadora Heloisa Helena que, mesmo ausente das disputas majoritárias no último pleito municipal, e de praticamente ter sua aparição pública limitada aos pronunciamentos na TV Senado, já havia alcançado esse índice de aceitação no último Datafolha? Como é possivel admitir censura prévia nessa omissão deliberada, melhor ir direto aos argumentos do senador Jorge Bornhausen.

De pronto, ele se qualifica como ''acionista pioneiro'' da oposição ao governo Lula, por conta de seu partido ter recebido, em 2002, ''um mandato popular para representar uma alternativa democrática ao PT''.

Menos. Não tem ''mandato'', porque ninguém é votado para ser oposição. O PFL, junto com o PSDB, foi, sim, defenestrado pelo voto de 52 milhões de brasileiros que deram um ''basta'' ao mandarinato neoliberal posto em prática pelas duas legendas, durante os oito anos de governo FHC.

Alternativa, vá lá, mas nem programática, nem democrática. Basta considerar a simbologia de origem e a tradição ''pragmaticamente'' governista da legenda do senador.

Quanto ao programático, em que o PFL seria oposição? Nas políticas implementadas pela Fazenda e o Banco Central, segundo os parâmetros impostos pelo FMI e os ditos ''credores internacionais''? No desmonte da Seguridade Social, que ocorram no interesse dos grandes banqueiros interessados na privatização da Previdência? Na prioridade ao agronegócio sobre a reforma agrária? Na legalização do crime ambiental da soja transgênica, para atendimento das exigências da Monsanto e seu monopólio de sementes? Não vamos esquecer, é claro, a ''blindagem'' do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, para impedir as investigações que contra ele já iam em curso avançado quanto à sonegação fiscal e evasão de divisas. O PFL, junto com o PSDB, não se opôs a nenhum desses itens, impostos pela nova direita petista.

O que está em jogo, portanto, é apenas o aparelho do Estado. O que está em jogo, para o PFL e também para o PSDB, é a caneta que nomeia. É a chave do cofre que libera recursos federais para interesses privados.

Alternativa democrática ao governo Lula, a esquerda tem direito de anunciar, só pode vir das vertentes progressistas da sociedade civil organizada, caroneadas no estelionato eleitoral de 2002. Dos que se mantiveram fiéis aos princípios programáticos definidos antes da ascensão dos ''companheiros'' aos tapetes da Esplanada dos Ministérios - auditoria da dívida pública, como base de renegociação no nosso interesse; levantamento das ilegalidades nos processos de privatização, para buscar ressarcimento; uma verdadeira reforma tributária, impondo progressividade e pondo fim aos privilégios e isenções concedidos ao grande capital especulativo; um combate concreto à sonegação fiscal e aos sonegadores da Previdência e da Receita Federal. Resultariam daí algumas fontes de recursos internos indispensáveis a um programa realmente alternativo de governo, pois fundado na distribuição de renda, e na fundação de uma sociedade, econômica e socialmente mais justa.

Para isto, é direito das correntes de esquerda afirmar, a senadora Heloisa Helena, pelo que pensa, simboliza e faz, é certamente mais apta do que Cesar Maia.