Título: Dia decisivo para a saúde
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 01/03/2005, Rio, p. A14

Impasse entre secretaria e ministério pode resultar na devolução de hospitais à União

Representantes da Secretaria Municipal de Saúde e do Ministério da Saúde voltam a se reunir hoje para mais uma rodada de negociações na tentativa de solucionar o problema dos hospitais públicos do Rio. Comenta-se que essa deve ser a última oportunidade para um acerto. Caso não cheguem a um entendimento, já se cogita a possibilidade de a prefeitura devolver os hospitais municipalizados à União. Ontem, em mais um capítulo da crise do sistema de saúde do município, médicos e residentes se reuniram no Hospital do Andaraí, Zona Norte da cidade. Os técnicos da Secretaria Municipal de Saúde dão conta de que seriam necessários cerca de R$ 196 milhões para custear os hospitais públicos. Já o governo federal acena com a possibilidade de liberar R$ 100 milhões este ano para garantir as despesas com pessoal e com a reforma das unidades. Não faria parte do acordo a compra de medicamentos - a ser discutida em Brasília.

Enquanto isso, o clima se mantém tenso nas unidades de saúde do município. Médicos têm sido obrigados a juntar dinheiro para garantir serviços como o transporte de pacientes ou a compra de remédios. No domingo, profissionais do Hospital Cardoso Fontes, em Jacarepaguá, fizeram uma ''vaquinha'' para transportar um paciente sem condições de ser atendido na unidade. No mesmo dia, a emergência do Hospital Municipal Souza Aguiar, no Centro, não atendeu a três pacientes. Esse caso levou policiais civis da Delegacia de Repressão a Crimes na Saúde a investigar se houve negligência sobre o caso.

Os ânimos ficaram ainda mais exaltados com a decisão do subsecretário de Saúde, Jacob Kligerman, de se recusar a receber os médicos residentes do Hospital do Andaraí. Os profissionais iriam tratar de assuntos como a falta de medicamentos na unidade.

- Foi um desrespeito. Ele primeiro me chamou de ''moleque'' e depois me mandou ''calar a boca'' - protestou o médico Diogo Sampaio, presidente da Associação de Médicos Residentes do Rio.

Jacob Kligerman só deixou a unidade por volta das 12h30, quando os médicos residentes já haviam ido embora. O presidente do Sindicato dos Médicos do Rio, Jorge Darze, lamentou o episódio e garantiu que a situação das unidades será levada ao Ministério Público estadual.

- Basta olhar para o prédio para se observar o estado de precariedade do hospital. O Andaraí é um centro de referência no atendimento de queimados. A emergência está em situação falimentar - afirmou.

O setor está fechado desde a semana passada. A emergência do Hospital do Andaraí recebe apenas pacientes que corram risco de morte. O chefe do Setor de Queimados da unidade, Roberto Portes reclamou da falta de todos os tipos de medicamentos e produtos.

- Falta até papel higiênico. A situação é caótica. Os doentes estão morrendo e os médicos não têm condição de trabalho - desabafou Portes.