Título: Governo já prevê retração no campo
Autor: Aliski, Ayr
Fonte: Jornal do Brasil, 09/10/2008, Economia, p. A19

Próxima colheita deverá ter 144,55 milhões de toneladas, 1,5% a menos que a anterior.

BRASÍLIA

A produção brasileira de grãos na safra 2008/2009 deve praticamente estagnar, senão cair, na comparação com a colheita passada. Dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) indicam que a próxima colheita oscilará entre 142,03 milhões e 144,55 milhões de toneladas, frente 143,81 milhões de toneladas da safra 2007/2009. Ou seja, o governo estima, na hipótese pessimista, uma retração de 1,5% no campo. Na hipótese otimista, a expansão será no máximo 0,5%. Esse cenário de quase estagnação ocorre se não houver surpresas climáticas.

¿ Mas a questão climática será favorável ¿ previu o ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes.

Os dados do Primeiro Levantamento de Intenção de Plantio da Safra 2008/2009 foram divulgados ontem, no Ministério da Agricultura. Na construção do estudo, a Conab realizou o levantamento de dados entre 15 e 20 de setembro, depois, portanto, da quebra do Lehman Brothers, marco do início da acentuação da crise financeira internacional. O levantamento leva em conta planejamentos dos produtores feitos no momento no qual o mundo tinha crédito mais abundante e barato e os preços das commodities estavam mais elevados.

O total de área plantada deverá ficar entre 47,85 milhões e 48,59 milhões de hectares, o que representa expansão de 1,2% a 2,7% sobre os 47,31 milhões de hectares da safra anterior. O estudo considera as principais culturas, envolvendo algodão, arroz, soja, trigo e as primeiras safras de amendoim, feijão e milho. Conforme a Conab, a expansão da área deve-se a fatores que incluem crescimento do plantio de soja, trigo e feijão (na 1ª safra). O diretor de logística e gestão empresarial da Conab, Sílvio Porto, creditou o modesto crescimento da área plantada às restrições ambientais (impossibilidade de expansão de áreas em Mato Grosso, por exemplo) e escassez de mão-de-obra qualificada. A Conab utilizou, neste primeiro levantamento de safra, uma estimativa conservadora de produtividade, considerando 2,968 toneladas por hectare, contra 3,04 toneladas por hectare registrados na safra passada.

Análises setoriais indicam quedas nas ofertas de algodão, amendoim, cevada, milho e triticale. Stephanes deixou claro que o planejamento de safra já estava feito quando a crise financeira internacional agravou-se e que seria impossível ao produtor reverter programações de plantio. Ainda assim, estima que a agropecuária deverá sofrer menos impactos, mesmo em situação generalizada de queda dos preços das commodities.

¿ Temos uma demanda mundial e interna de alimentos ¿ diz.

O ministro disse ainda que não faltará crédito ao setor agropecuário brasileiro, mesmo em momento de enxugamento dos repasses por tradings, tradicionais financiadoras do plantio e citou a antecipação de liberação de R$ 5 bilhões.

¿ Se precisar mais, o Governo vai ter que colocar ¿ disse Stephanes, que citou a possibilidade de uso das reservas do depósito compulsório para irrigar o crédito agrícola. O ministro destacou que haverá um novo desafio quanto ao crédito, mas relativo à comercialização, que ocorrerá em aproximadamente seis meses.