Título: Economistas apoiavam o governo. Até ontem
Autor: Falcão, Márcio
Fonte: Jornal do Brasil, 23/10/2008, Tema do dia, p. A10

Técnicos ligados à oposição condenam a MP 443

Raphael Bruno

BRASÍLIA

Dois economistas convidados pelo partidos de oposição para uma reunião na Câmara dos Deputados com a presença do ministro da Fazenda, Guido Mantega, e do presidente do Banco Central (BC), Henrique Meirelles, disseram, ontem, que o governo estava enfrentando a crise se maneira adequada. Pelo menos até ontem, quando foi editada a Medida Provisória 443, que deu poderes ao Banco do Brasil e à Caixa Econômica Federal para intervir no apoio a instituções financeiras e empresas em dificuldade.

¿ Ficar utilizando o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal para salvar bancos privados em dificuldades me parece algo inadequado ¿ diz Carlos Eduardo Feitas, ex-diretor do Banco Central, que esteve em Brasília a convite do DEM.

Convidado pelo PPS, economista Tony Volpon, que trabalha em São Paulo seguiu pelo mesmo caminho:

¿ O governo só precisa enfrentar a crise de maneira realista e não fugir do debate sobre ela com quem quer que seja ¿ completou.

Os dois foram convidados pelas duas legendas para participar, na última terça-feira, de uma comissão geral na Câmara dos Deputados com Mantega e Meirelles. Por exigência do primeiro, foram proibidos de se pronunciar. Para não perder viagem, Volpon, ficou, ao longo dos pronunciamentos dos dois representantes do governo, auxiliando os parlamentares da oposição e comentando os discursos. Na avaliação do economista, a maioria das medidas tomadas pelo governo estão na "direção certa" e na "linha do que outros bancos centrais estão fazendo".

¿ Em nenhum momento me foi passado que havia sequer essa previsão de perguntas diretas ao ministro ¿ comenta. ¿ Iria ser apenas uma exposição. Não pretendia fazer nenhuma crítica direta à política econômica, iria apenas compartilhar minha visão da crise. Estou desapontado. Achei desnecessário.

¿ A rigor, não nos caberia nem fazer perguntas diretas aos ministros ¿ reclama o ex-diretor do Banco Central. ¿ Seria apenas uma exposição. Fiquei surpreso. Não havia necessidade daquilo, não sei porque os ministros colocaram essa condição.

Freitas diz que o tom de sua fala aos parlamentares não seria de confronto ou questionamento das ações do governo em relação à crise. O ex-diretor do Banco Central também acreditava que estas ações estavam, até a apresentação da MP 443 ontem, na "direção correta".

Sem mandato

A instituição da Comissão Geral da Câmara é, a rigor, uma das poucas oportunidades previstas no regimento da casa para que autoridades e especialistas que não tenham mandatos parlamentares possam ocupar a tribuna do plenário para debater temas da atualidade. Na terça-feira, Mantega só aceitou comparecer à comissão após ordem direta do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O presidente foi alertado sobre a possível repercussão negativa de uma eventual recusa do ministro em participar da reunião. Mantega aceitou, mas somente sob a condição de que não seria envolvido em um debate com os economistas convidados pela oposição. Como o ministro da Fazenda e o presidente do Banco Central ainda devem comparecerão ao Senado para discutir a crise, no próximo dia 30, a expectativa na oposição é de que o debate possa ocorrer no futuro.

¿ Estou à disposição, tenho o maior prazer em ir ao Congresso ¿ diz Freitas. ¿ O debate com os parlamentares é sempre muito produtivo.