O Estado de São Paulo, n.46365, 26/09/2020. Política, p.A10

 

Eduardo diz que citou ruptura numa 'conjuntura incerta'

Breno Pires

Paulo Roberto Netto

Fausto Macedo

25/09/2020

 

 

Deputado depôs à PF por seis horas e meia, afirmou ter feito 'análise de cenário' e negou subversão da ordem

O deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) afirmou à Polícia Federal (PF) que quando disse, em 28 de maio, que participava de reuniões em que se discutia "quando" acontecerá "momento de ruptura" no Brasil, estava referindo a uma "cogitação futura e incerta". O parlamentar foi confrontado na terça-feira pelas declarações, dadas em maio, ao blogueiro Allan dos Santos, investigado no inquérito que apura a realização de atos antidemocráticos.

O teor do depoimento foi revelado pela emissora CNN Brasil e confirmado pelo Estadão.

Na live com Santos, em maio, Eduardo afirmou também que "quando chegar ao ponto em que o presidente não tiver mais saída e for necessário uma medida enérgica, ele é que será tachado como ditador".

À PF, o filho do presidente afirmou que "foi uma análise de um cenário e não uma defesa de ideia, que a frase está na esfera de cogitação futura e incerta, que inexiste qualquer tipo de organização voltada para a subversão da ordem democrática", segundo registro do termo de depoimento. E que o termo 'ação enérgica' não se refere a nenhuma conduta específica, mas tão somente a uma atuação política mais efetiva. "Ressalto ainda que não se trata de medida de intervenção militar ou de interferência em outros poderes", informa o documento.

Questionado sobre quais elementos o levaram a dar a declaração sobre quando ocorreria uma "medida enérgica", Eduardo respondeu que a fala foi dita

"no contexto dos acontecimentos de divergência entre os poderes Executivo e Judiciário". À época, o ministro do Supremo Tribunal Federal Celso de Mello havia liberado o vídeo da reunião ministerial do dia 22 de abril – em outro processo, o decano encaminhou à PGR notícia-crime que pedia a apreensão do celular do presidente, ação de praxe que provocou forte reação no meio militar.

Eduardo acrescentou, em depoimento que "atualmente" não acredita que "tal ruptura possa ocorrer". O deputado foi ouvido no seu gabinete, em Brasília, por seis horas e meia. Também respondeu sobre participação em encontros organizados por Santos.