Título: Bancos centrais, os salvadores
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 12/10/2008, Opinião, p. A10
Os Bancos Centrais de todo o mundo ganharam o foco principal dos holofotes da crise financeira mundial, que, em um mês, provocou perdas milionárias em ações desvalorizadas e em bancos com contabilidades rotas. Protagonizam o papel de salvadores da pátria, na verdade, de um sistema seriamente abalado desde a fase do derrame irresponsável de hipotecas subprime. Curiosa essa inversão de papéis na economia contemporânea, onde há bem pouco a idéia de interferência nos processos de livre-mercado soaria uma heresia para muitos. Na mão inversa, agora o próprio mercado dá sinais evidentes do clamor por ações dos bancos centrais para conter a crise. A fome pela intervenção governamental parece inesgotável nos últimos tempos e aumenta a urgência de uma atuação integrada dos organismos financeiros internacionais.
A resposta rápida dos mercados às breves intervenções praticadas nos últimos 30 dias mostra o quanto é necessária a atuação dos bancos centrais que, mesmo não sendo ainda decisivos para pôr um fim ao nervosismo do mercado, conseguem dar a certeza do quanto os governos estão atentos e prontos para intervir a favor, principalmente, dos investidores e correntistas. As oscilações de humor dos investidores, que refletem no resultado final da bolsa e na volatilidade do dólar, são inevitáveis diante de uma crise que ultrapassou a barreira do financeiro e já abala os alicerces da confiabilidade.
A crise é mundial e globalizada. Não há como os países ao redor do planeta saírem totalmente ilesos em meio a um cenário de pavor verificado nos solos das grandes potências. O sofrimento dos demais países é proporcional à capacidade de blindagem que possuírem. Neste quesito, como ressaltam os especialistas, o Brasil fez o dever de casa, ao erguer uma barreira protetora contra a crise tendo como cimento mais de US$ 200 bilhões em reservas. É como um corpo que se prepara para enfrentar o frio e a fome acumulando gordura suficiente para ser queimada. Ao menor sinal de instabilidade em alguma instituição financeira ou diante da alta volatilidade do dólar, como já aconteceu, o governo tem uma boa folga para atuar.
A instabilidade financeira internacional descortina vários cenários negativos para os países afetados. Tanto a alta do dólar quanto a baixa são maléficos para a economia nacional e podem colocar em risco a meta inflacionária. Os extremos geram desequilíbrio nas contas dos exportadores e em nossas contas externas. A capacidade de gerar um equilíbrio e frear o ataque de especuladores a partir da ação do Banco Central é um dos benefícios proporcionados pelas reservas acumuladas por nosso país e ameniza os efeitos que o tornado chamado crise dos subprime poderia provocar em solo brasileiro. Neste momento de alta instabilidade financeira e cambial, as intervenções do Banco Central têm sido certeiras para evitar que as variações da cotação do dólar arrastem as previsões do setor produtivo nacional para o ralo da estagnação.
Ninguém tem capacidade, por ora, de fazer um prognóstico preciso da intensidade e da duração dessa crise. A opinião unânime é da necessidade urgente de intervenções integradas o quanto antes para minimizar os efeitos que já são sentidos, como a escassez do crédito internacional. Para retomar o longínquo crescimento, bancos centrais dos países desenvolvidos já sinalizaram com a redução dos juros como meio de evitar maior desaceleração econômica por conta da crise financeira. Diante disso, não há razão suficiente para o Banco Central do Brasil trilhar o caminho inverso aos dos bancos centrais mundiais e, na próxima reunião do Copom, aumentar os juros ¿ hoje em 13,75% ¿ que mantém o país no topo do ranking das maiores taxas do mundo.