Título: Especialistas temem pelas instituições de pequeno porte
Autor: Aliski, Ayr
Fonte: Jornal do Brasil, 14/10/2008, Economia, p. A20
É a sexta vez que o Banco Central mexe no compulsório. Desde a quebra do banco de investimentos americano Lehman Brothers, em meados de setembro, o BC anunciou a ampliação do abatimento para o recolhimento adicional sobre depósitos a prazo, depósitos de poupança e recursos à vista. A medida liberou, à época, R$ 5,2 bilhões. Mas, especialistas temem que, diante dessas ações, as pequenas instituições fiquem reféns dos grandes bancos.
Em 24 de setembro, foi adiado o cronograma de implementação do recolhimento compulsório sobre depósitos de empresas de leasing. Nesse caso, a alteração injetou outros R$ 8 bilhões.
Poucos dias depois, em 2 de outubro, o BC voltou a alterar regras do compulsório para favorecer a negociação de carteiras de crédito entre instituições financeiras. A medida incentiva, principalmente, que grandes bancos adquiram carteiras de instituições de menor porte. Foram liberados R$ 23,5 bilhões em compulsórios. Após menos de uma semana, em 8 de outubro, mais duas medidas. Dessa vez, a autoridade monetária ampliou o abatimento dado às instituições para o recolhimento compulsório sobre depósitos a prazo e também reduziu as alíquotas sobre a exigibilidade adicional sobre depósitos à vista e a prazo. A primeira decisão liberou, pelas contas do BC, até R$ 6,3 bilhões. A segunda medida injetou outros R$ 16,9 bilhões no mercado. Juntas, todas as decisões injetam R$ 160 bilhões no sistema financeiro em um período de apenas um mês.
As medidas foram tomadas como reação à falta de dinheiro disponível no mercado, situação que tem prejudicado principalmente as instituições de menor porte.
Para o economista Ricardo Araújo, da Fundação Getúlio Vargas, o Banco Central tem de ficar atento para saber se os bancos de pequeno e médio porte não ficarão reféns dos grandes bancos.
¿ Acho que o BC deve ligar a luz amarela, ter cautela para averiguar a situação desses bancos ¿ observou. ¿ Certamente, os poupadores não vão investir o dinheiro nesses bancos. Mesmo que a liqüidez fique folgada, os bancos grandes é que decidirão se vão emprestar dinheiro para os pequeno e médios. O risco que eles correm é grande.
Outra indagação do economista é se os recursos vão estabelecer a confiança do mercado.
¿ Por ironia do destino, o Brasil está protegido porque a taxa de juros doméstica é muita elevada. Além disso, os bancos não fizeram muitos negócios com os bancos internacionais e não precisam captar recursos no exterior. O sistema bancário brasileiro é muito conservador, até poderia ter lucrado mais no passado se não tivesse essa característica, mas hoje não estaria tão confortável ¿ ressaltou o professor de macroeconomia.
Paulo Di Blasi, do Ibmec-RJ, diz que a medida é preventiva e não descarta novas medidas para aumentar a liqüidez dessas instituições.