Título: Uso de derivativos é comum, mas houve exagero
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 28/10/2008, Economia, p. A17

As operações financeiras com derivativos, normalmente usadas como forma de obter proteção de câmbio, foram trazidas ao centro das discussões sobre a solidez da economia brasileira frente à crise mundial quando empresas que utilizavam esses ativos como alavancagem ¿ aposta que supera em muito o capital da instuição ¿ para obtenção de lucros revelaram os prejuízos sofridos com a súbita e vertiginosa alta do dólar.

Para Rafael Moysés, gestor da corretora Umuarama, o uso de derivativos é uma prática natural do mercado, mas as empresas que obtiveram prejuízo ousaram demais:

¿ Isso sempre foi feito, várias empresas já ganharam muito dinheiro com isso. O problema foi a velocidade com que o dólar subiu. A alavancagem é uma ousadia e houve uma aposta arriscada no real ¿ avalia Moysés.

O especialista diz que o momento de instabilidade não é propício à alavancagem, mas acredita que, quando o mercado voltar à "calmaria", as empresas voltarão a realizar operações arriscadas com derivativos.

Paulo Di Blasi, professor do Ibmec-RJ, especializado em mercado de capitais, também concorda que a prática é comum entre as empresas, contudo "elas têm de saber os riscos que correm ao operarem com derivativos".

Esse sistema, explica Di Blasi, funciona como uma proteção dos negócios atrelados ao dólar, em que a taxa é combinada com a instituição financeira para prever o preço das operações de longo prazo. Contudo, o professor alerta as empresas que operam em dólar e não são bancos: terão de contabilizar os prejuízos.

¿ Passa a ser uma gestão especulativa do caixa ¿ sustentou Di Blasi, ao destacar o caso da Sadia que, ao invés de negociar frango, negociava dólar. ¿ Quando ocorre uma alteração brusca, a solução é renegociar as posições (as taxas) com os bancos para tentar diminuir as perdas financeiras.

Na avaliação de Di Blasi, as empresas terão de utilizar critérios de proteção cambial mais caros e restritos, como por exemplo, implantar medidas de controle de risco e governança corporativa bem criteriosos para recuperar prejuízos.

O professor do Ibmec-RJ acredita que "o governo vai oferecer linhas transitórias de financiamento a um custo efetivo para as empresas", para evitar quebradeira geral.