O globo, n. 31929, 06/01/2021. País, p. 4
Traições a solta na Câmara
Bruno Góes
Natália Portinari
06/01/2021
Arthur Lira e Baleia Rossi “furam” apoio de partidos ao bloco rival
As traições na disputa pela presidência da Câmara dos Deputados já são explícitas. Ontem, em viagem de campanha a Macapá e a Belém,o candidato apoiado pelo presidente Jair Bolsonaro, Arthur Lira (PP-AL), foi acompanhado por Elmar Nascimento, parlamentar do DEM e ex-líder da legenda, e Celso Sabino, do PSDB do Pará. Os partidos de ambos, porém, já fecharam acordo com o adversário de Lira, Baleia Rossi (MDB-SP). O emedebista, por sua vez, contabiliza defecções no sentido contrário. Paulinho da Força, presidente do Solidariedade, sigla do grupo de Lira, é um dos que devem votar em Rossi.
No Amapá, Lira também conversou com o governador Waldez Góes, do PDT, partido alinhado ao grupo de Rossi e do atual presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ). O movimento é apenas um pequeno exemplo do esforço dos adversários em conquistar votos de dissidentes.
Em caráter reservado e a aliados, ambas as candidaturas afirmam já ter conquistado defecções em pelo menos dez partidos. Lira adota a estratégia de negociar “no varejo”, contando com o apoio de parlamentares individualmente. Já Rossi vem conseguindo obter vantagem com as lideranças e direções partidárias. Até agora, conseguiu montar um bloco maior.
Na ponta do lápis, apesar da existência de traições explícitas, há a tentativa dos dois lados de inflar o número de votos. Se fossem conjugadas as projeções, a Câmara teria mais de 513 deputados.
No grupo de Rossi, estão as duas maiores bancadas: o PT, com 52 parlamentares, e o PSL, com 53. Partidos de centro e de esquerda completam a lista: MDB, PSDB, DEM, PSB, PDT, PCdoB, Cidadania, PV e Rede. São 11 legendas com 278 deputados.
Já o bloco de Lira possui 195 parlamentares e forte presença do centrão. As maiores bancadas são as do PL, com 43 deputados, e do PP, com 40. Também estão no grupo Republicanos, Solidariedade, Pros, PSC, Avante e Patriota.
Segundo os aliados de Rossi, haverá traição de grande proporção no PSD, com defecção esperada de 15 deputados, além de PP, com 10 traições. Completam a lista Republicanos (7), PL (7) e Solidariedade (5). Já os apoiadores de Lira contam com o voto de parlamentares do PSL (28), PSDB (15), PSB (15), PDT (13) e DEM(10), além de parte do PT.
DEMANDAS
Ontem, em Macapá, Lira ouviu de Waldez Góes a necessidade de o Congresso tratar em conjunto as políticas públicas para a Amazônia. Também falou sob reas dificuldades coma arrecadação dos fundos de participação de estados e municípios. Depois da reunião, Lira conversou com parlamentares. Além dos dissidentes presentes, era esperada a presença da deputada Professora Marcivania( PC do B ), que preferiu não contrariara legenda. Ela não compareceu.
Em Belém, Lira esteve com o governador Helder Barbalho (MDB), além de reunir mais parlamentares. Um deles foi Paulo Bengtson (PTB-PA). O partido do parlamentar ainda não definiu qual candidato irá apoiar. O presidente da sigla, Roberto Jefferson, quer, no entanto, formalizar apoio ao candidato de Jair Bolsonaro.
—Vamos decidir na próxima semana, em reunião do partido, mas está bem dividido. Já decidimos que não haverá divisão, qual seja o rumo. Vamos seguir juntos —afirmou Bengtson.
No PSL, com 53 deputados, o presidente Luciano Bivar (PSL-PE) firmou uma aliança com Maia. Ele deve ficar com a primeira secretaria ou primeira vice-presidência da Casa. Lira, porém, tem 28 apoiadores no partido. Por serem maioria, poderiam impedir o apoio a Rossi. Mas 17 deputados bolsonaristas estão suspensos do partido até depois da eleição.
No ano passado, foi discutida a possibilidade de abreviar a suspensão. Como os deputados decidiram apoiar Lira, essa ideia se tornou inviável. Bivar disse ao GLOBO que irá processar por infidelidade partidária quem defender o voto em Lira:
— O PSL vai fechar questão. Quem votar contra ostensivamente corre risco de processo por indisciplina.
No Solidariedade, com 13 deputados, há uma divisão interna. O presidente do partido, Paulinho da Força (SP), é a favor de migrar para o bloco de Rossi, para demonstrar independência em relação ao governo. Na bancada, porém, em reunião antes do Natal, havia maioria favorável a Lira. O partido vai se reunir novamente na semana que vem. Mesmo ainda sem o apoio formal, o candidato de Maia tem votos na sigla.
MÁGOA
Elmar Nascimento, que acompanhou Lira ontem na viagem à Região Norte, era pré-candidato à presidência da Câmara e, no mês passado, enviou uma mensagem por WhatsApp, no grupo de deputados do DEM, na qual se disse “traído inexplicavelmente” por quem considerava “seu melhor amigo”. A mensagem foi uma indireta a Rodrigo Maia, após o presidente da Câmara afirmar publicamente que Aguinaldo Ribeiro (PP-PB) e Baleia Rossi eram os principais nomes em análise para o pleito.