O globo, n. 31929, 06/01/2021. Sociedade, p. 6
Vacina de Oxford
Victor Farias
Paula Ferreira
Johanns Eller
06/01/2021
Índia volta atrás, e Brasil confirma compra de dois milhões de doses
O governo brasileiro afirmou ontem que está confirmada a importação de 2 milhões de doses da vacina produzida pela farmacêutica britânica AstraZeneca em parceria com a Universidade de Oxford, na Índia. Segundo os ministérios da Saúde e das Relações Exteriores, não há "qualquer tipo de proibição oficial" do governo indiano, em relação à exportação de doses do imunizante contra a Covid-19.
"Está confirmada a importação de 2 milhões de doses da vacina da AstraZeneca/Oxford produzidas na Índia, com data provável de entrega a partir de meados do corrente mês de janeiro", disse o Itamaraty, em nota, na manhã de ontem.
Em seguida, o governo brasileiro afirmou em outro comunicado que "as negociações entre a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e o Instituto Serum da Índia para a importação pelo Brasil de quantitativo inicial de doses de imunizantes contra a Covid-19 encontramse em estágio avançado". O governo confirmou que as doses devem chegar em meados de janeiro.
Também ontem, houve uma reunião técnica na sede da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), em Brasília, entre representantes da agência sanitária e da Fiocruz. Foram entregues mais documentos para o processo de aprovação da vacina. A Fiocruz deve fazer o pedido de registro oficial do imunizante de Oxford/AstraZeneca ainda nesta semana.
No último domingo, horas após o Brasil anunciar um acordo com a instituição para a compra de 2 milhões de doses prontas do imunizante, o CEO do Instituto Serum da Índia, Adar Poonawalla, havia dito à Associated Press que a exportação seria vetada até que toda a população indiana vulnerável ao coronavírus
"(Nossa) principal tarefa é salvar vidas e os meios de subsistência de populações na Índia e em todo o mundo" _
Instituto Serum e Bharat Biotech,
Laboratórios indianos produtores de vacinas
"Está confirmada a importação de 2 milhões de doses da vacina da AstraZeneca/ Oxford, com data provável de entrega a partir de meados do mês" _ Itamaraty, em comunicado Fosse vacinada.
Ontem, no entanto, ele negou que haja restrições à exportação do imunizante. O recuo ocorreu em mensagem divulgada em uma rede social pelo CEO, que incluiu um comunicado conjunto entre o Serum e a Bharat Biotech, farmacêutica indiana responsável pelo desenvolvimento da vacina candidata Covaxin.
ACORDO DE R$ 59,4 MILHÕES
Sem mencionar as afirmações categóricas feitas a agências de notícias no domingo, Poonawalla enfatizou, para contornar "falhas de comunicação", que a exportação está liberada "para todos os países". O executivo havia dito que o envio de vacinas prontas para o exterior só seria permitido após o fornecimento de 100 milhões de doses às autoridades indianas, a US$ 2,70 cada.
No comunicado conjunto entre o Instituto Serum e a Bharat Biotech, os dois laboratórios enfatizam que "a principal tarefa diante deles é salvar vidas e os meios de subsistência de populações na Índia e em todo o mundo". A nota sublinha, ainda, que vacinas são "um bem de saúde pública global e têm o poder de salvar vidas e acelerar o retorno à normalidade econômica o mais rápido possível".
No Brasil, a Fiocruz prevê pagar R$ 59,4 milhões pela importação das 2 milhões de doses acordadas com a Índia —o valor inclui operação, armazenagem e transporte. Segundo a fundação confirmou ao G1, cada dose comprada do Instituto Serum irá custar US$ 5,25, que é o valor da vacina pronta.
Essas doses não fazem parte do contrato assinado no ano passado entre a AstraZeneca e o governo federal, que permanece sem alterações. O documento prevê a compra de 100,4 milhões de doses de insumo farmacêutico ativo da vacina, além de uma licença à Fiocruz para a produção, distribuição e comercialização do imunizante. A expectativa é que sejam entregues 15 milhões de doses em janeiro, 15 milhões em fevereiro e o restante até julho de 2021.
A Bharat Biotech, desenvolvedora da vacina indiana Covaxin, informou à Anvisa na segunda-feira que avalia tanto a condução de ensaios clínicos de fase três no Brasil quanto a submissão de pedido de registro definitivo do imunizante no país.
Em reunião com a Anvisa, o laboratório Precisa Farmacêutica, que representa a empresa Bharat Biotech no país, afirmou que ainda vai definir sua estratégia para o Brasil. No domingo, a Associação Brasileira das Clínicas de Vacinas (ABCVAC) anunciou que articula a aquisição de 5 milhões de doses da vacina Covaxin para a rede particular do país.
A medida poderia prejudicar não apenas o acordo firmado com o Brasil, cuja importação das 2 milhões de doses foi aprovada pela Anvisa no dia 31 de dezembro, mas também o envio de imunizantes para a Covax Facility, iniciativa global liderada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) que visa universalizar o acesso às vacinas nos países mais pobres e em desenvolvimento.