Correio braziliense, n. 21048, 09/01/2021. Brasil, p. 5

 

Vírus mais resistente

09/01/2021

 

 

Uma nova variante do Sars-CoV-2 identificada no Brasil apresenta alterações capazes de ajudar o vírus a escapar parcialmente à imunidade oferecida pelas vacinas usadas na prevenção da doença. Essa variante também foi identificada na África do Sul e é diferente da mutação registrada no Reino Unido e significa que o organismo seria mais resistente à vacina.

O estudo foi publicado on-line, na última terça-feira, em formato de pré-impressão (ou seja, ainda sem revisão dos pares), na BioRxiv. Tem como principal autor o microbiologista Jesse Bloom, da Universidade de Washington (EUA). O trabalho mostra que, em algumas pessoas, o novo coronavírus conseguia escapar dos anticorpos neutralizantes até dez vezes mais do que o normal.

Todas as vacinas desenvolvidas ao longo deste ano têm como alvo a chamada proteína spike. Essa é a estrutura usada pelo vírus para entrar nas células que ataca. Os imunizantes "treinam" os anticorpos para atacar uma determinada região desta proteína, impedindo a invasão do organismo pelo SarsCov2.

As mutações na proteína spike, no entanto, podem ajudar o vírus a "enganar" as duas principais linhas de ação do sistema imunológico. Elas são os anticorpos, que impedem a invasão das células saudáveis, e as células T, que tentam destruir o vírus.

Até agora, uma mutação deste tipo não tinha sido observada. A variante detectada originalmente no Reino Unido, que já está presente em várias outras partes do planeta, revelou-se mais contagiosa. Mas não tem nenhum impacto na eficácia das vacinas que estão sendo desenvolvidas e aplicadas. A nova mutação, no entanto, pode reduzir a capacidade dos anticorpos de neutralizar a atividade viral em até dez vezes.

Isso não quer dizer que as vacinas não vão funcionar. A complexa resposta do sistema imunológico humano à invasão de um vírus seguirá tendo outras estratégias. A mutação pode atrapalhar o trabalho dos anticorpos naquele fragmento específico da proteína spike, mas não afeta anticorpos treinados para olhar para outras partes do vírus.