Título: Governo anuncia R$ 3 bi para a área de construção civil
Autor: Monteiro, Viviane
Fonte: Jornal do Brasil, 29/10/2008, Economia, p. A19

Empresários do setor consideram montante suficiente para 2009

Viviane Monteiro

BRASÍLIA

O governo deve anunciar hoje uma linha de crédito de capital de giro para empresas do setor imobiliário no valor de R$ 3 bilhões, antecipou o ministro da Fazenda, Guido Mantega. Segundo ele, a fonte dos recursos será a Caixa Econômica Federal (CEF).

¿ O setor de construção está precisando de capital de giro e isso pode comprometer os projetos ¿ disse o ministro ontem, durante o 3º Encontro Nacional da Indústria, promovido pela Confederação Nacional da Indústria (CNI).

Para o presidente da Câmara da Construção Civil (CBIC), Paulo Safady Simão, os recursos são "suficientes" para atender os empresários da construção civil no próximo ano. As medidas, segundo informou, já eram negociadas com a ministra da Casa Civil, Dilma Roussef, há mais de um mês. Para ele, a sinalização do governo está dentro das expectativas, uma vez que os empresários pleiteavam entre R$ 3 bilhões e R$ 4 bilhões.

Em sua avaliação, as taxas de juros aplicadas no crédito serão de até 9% ao ano, mais a Taxa Referencial (TR).

¿ O governo estudava taxas de juros entre 9% e 11% ¿ disse. ¿ Mas a taxa não pode superar 9% mais TR ¿ ponderou. As linhas de crédito devem ser destinadas principalmente a projetos imobiliários já prontos. Ou seja, com operações de venda em andamento.

Simão disse que as reivindicações da CBIC são de uma linha de crédito para ser destinada ao financiamento de compra de ativos imobiliários (construtoras podem acessar o crédito para adquirir ativos de outras empresas); a fusões e financiamento de recebíveis.

Desaceleração

Para ele, o setor tem grande relevância na economia, por representar 8% do Produto Interno Bruto (PIB). A expectativa do dirigente é que o setor cresça entre 8,5% e 9% neste ano, em relação a 2007. Para 2009, a CBIC ainda não fez estimativa, mas já cogita desaceleração em razão dos impactos da crise financeira internacional no crédito e no poder de compra da população.

Ao contrário da medida anterior destinada à construção civil, prevista na Medida Provisória 443 em que a CEF poderá adquirir participação de empresas do setor, Simão demonstrou apoio à linha de crédito a ser anunciada hoje.

¿ Elas serão disponibilizadas no mercado ¿ explicou. Simão criticou a medida anterior pelo fato de ser uma forma da CEF aumentar o monopólio no setor, uma vez que já concentra as operações com recursos do FGTS e da Cadernetas.

Crise de longa duração

O ministro da Fazenda, presente ao debate promovido pela Confederação Nacional das Indústrias, adotou ontem um tom acima em relação à preocupação do governo com a crise, ao afirmar que ela tem "longa duração e magnitude inédita":

¿ O mundo todo vai desacelerar e vamos ter forte impacto na economia real ¿ admitiu o ministro, que mantêm a previsão de crescimento do PIB para este ano em cerca de 5% e em 2009 entre 4% e 5%. É uma projeção otimista diante das estimativas da maioria dos economistas que prevêem avanço de até 3,5% em 2009.

Mantega repetiu, entretanto, que o país está mais preparado para enfrentar crises e que os países emergentes serão menos afetados.

¿ Nós fortalecemos a economia brasileira, melhoramos a produtividade do setor agrícola e do setor produtivo, acumulamos reservas internacionais superiores a US$ 200 bilhões que continuam apesar dessa turbulência ¿ disse o ministro, ao discordar do senador Tasso Jereissati (PSDB-CE), que disse que os fundamentos capitalistas da economia brasileira continuam os mesmos.

Durante o debate da CNI, Guido Mantega afirmou ainda que já há falta de crédito no Brasil para capital de giro das empresas e para as operações de exportações, mas que esses problemas são bem menores do que nas economias mais avançadas. O ministro disse também que considera natural que os bancos brasileiros estejam sendo mais cuidadosos e seletivos na hora de fazerem novas concessões de crédito, devido aos problemas criados pela crise financeira internacional.

¿ É natural esta posição, das instituições dinanceiras, de ter mais comedimento, mais precaução ¿ afirmou o ministro ¿ É impressionante como o travamento do crédito pode se transmitir rapidamente para a economia real ¿ afirmou.