Título: Para Lula, mercado é ovo sem gema
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Fonte: Jornal do Brasil, 01/11/2008, Tema do Dia, p. A5

Presidente usa comparação para dizer que sistema financeiro "é vazio" e precisa do Estado

Em visita a Cuba, ontem, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a defender mudanças no sistema financeiro mundial e pediu mais regulação do Estado para o setor. Lula comparou o mercado financeiro a um ovo sem gema.

¿ Na crise, percebemos que o mercado é como se fosse um ovo sem gema, ou seja, vazio. Quem é que corre para socorrer o mercado? Exatamente o Estado, que não valia nada, que atrapalhava ¿ disse o presidente, em Havana, ao lado do colega cubano, Raúl Castro.

Segundo Lula, durante três décadas, "o Estado foi negado, tripudiado e o mercado era tido como soberano, onipotente e regularia tudo". O presidente fez duras críticas às duas principais instituições financeiras internacionais:

¿ É preciso mudar a economia mundial. O FMI (Fundo Monetário Internacional) e o Banco Mundial, do jeito que funcionam hoje, de nada servem. Os países precisam regular o sistema financeiro ¿ afirmou.

Depois, revelou sua preferência pelo candidato Barack Obama à Presidência do Estados Unidos. Segundo ele, "todo mundo tem uma vontade escondida de que um negro seja presidente da maior potência mundial".

¿ Não conheço bem nem o Obama, nem o McCain, mas, da mesma forma que o Brasil elegeu um metalúrgico, a Bolívia elegeu um índio, a Venezuela elegeu Chávez e o Paraguai elegeu um bispo, acho que será um momento extraordinário se a maior economia do mundo eleger um negro.

Sobre o Brasil, Lula garantiu que o governo está tomando todas as medidas para que o país não sofra qualquer percalço, além de manter todos os investimentos previstos até 2010. E voltou a ressaltar o papel dos países emergentes na discussão mundial sobre os rumos do capitalismo.

¿ A crise provou que o mercado não se auto-regula, e é preciso que os países, principalmente os emergentes, que estão sendo apontados como salvadores do capitalismo, tenham direito a participar das decisões ¿ salientou, reforçando mais uma vez a idéia que vem repetindo nos últimos dias. Pediu que o mercado seja submetido a regras, como são os governantes.

¿ Não dá para você ser submetido a uma lei e o sistema financeiro não ser.

Em Cuba, Lula esteve durante duas horas com o amigo e ex-presidente Fidel Castro, mas antes, discutiu ajuda humanitária ao país, atingido pelos furacões Ike Gustav e, o motivo principal da viagem, participou da cerimônia que selou um acordo entre a Petrobras e a estatal cubana Cupet para a exploração de petróleo na costa da ilha.

O acordo, com investimento inicial de US$ 8 milhões, permitirá que a Petrobras inicie a exploração no bloco 37 dos 59 disponíveis em águas cubanas do golfo do México. O presidente disse que esperava a conclusão do acordo há seis anos, e que sente vontade de se banhar de petróleo:

¿ Tenho vontade de tomar um banho de petróleo, mas o Gabrielli (José Sérgio, presidente da Petrobras) disse que eu não posso, que é preciso tirar algumas substâncias.

O Brasil é o segundo sócio comercial de Cuba na região. O intercâmbio bilateral foi de US$ 412 milhões em 2007, cerca de 10% a mais do que em 2006.