Correio braziliense, n. 21059, 20/01/2021. Brasil, p. 5

 

Imunização na Amazônia

Bruna Lima 

20/01/2021

 

 

De português, a indígena Isabel Cezário, 68 anos, não falou uma palavra. Mas, para fazer-se entender, nem precisava. O sentimento era de alívio e gratidão. Da etnia ticuna, a idosa foi a primeira índia aldeada a receber, ontem, a vacina contra a covid-19 no Alto Rio Solimões, um dos maiores Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEI) do Brasil. Assim como Isabel, todos os 35 mil aldeados adultos da região terão a oportunidade de tomar a primeira dose da CoronaVac nos próximos 10 . No entanto, o impacto das falsas notícias nas comunidades tem se mostrado um desafio a mais aos profissionais de saúde que os assistem.

Única medida de combate contra a covid-19 efetivamente comprovada pela ciência até o momento, a vacina tem sido alvo de questionamentos para aqueles que vivem afastados das grandes capitais. Em vez de salvar, muitos índios têm sido induzidos a acreditar que o imunizante pode matar, o que assusta e diminui a adesão, que, em campanhas rotineiras, consegue ultrapassar a meta vacinal de 90%.

"Mesmo com uma logística difícil, temos expertise em alcançar as áreas mais remotas e atingir cerca de 95% a 97% de cobertura vacinal na população indígena. As pessoas entendem a dimensão da gravidade da covid, já que, no distrito, tivemos 37 óbitos. Mesmo assim, chegam fake news, e isso tem deixado as comunidades com medo", conta o coordenador do DSEI Alto Rio Solimões, Weydson Pereira.
Na divisa da fronteira entre Colômbia, Peru e Brasil, a aldeia Umariuçu I foi escolhida pelo Ministério da Saúde para iniciar a campanha de vacinação contra a covid-19 entre todas as comunidades aldeadas assistidas pelo Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai). Isso porque, além de estar no perímetro da tripla divisão entre países, está próxima de locais mais urbanizados e menos remotos. A estratégia é começar pelas aldeias mais próximas e mais acessíveis, terminando naquelas que são mais longe e de difícil acesso. E foi a partir do histórico de adesão e dos exemplos dados no primeiro dia de imunização na aldeia Umariaçu I, que teve como alvo mil aldeados, que Pereira espera reverter esse quadro.

Se depender do técnico de enfermagem e indígena da etnia ticuna Tarcis Marques, 34, toda a comunidade vai aderir à campanha. "Meu povo está em pânico, acreditando em mentiras que falam por aí. Por isso, eu vim mostrar que não é assim".