Título: O setor financeiro vai encolher
Autor: Rosa, Leda
Fonte: Jornal do Brasil, 02/11/2008, Economia, p. E7

ENTREVISTA : EDUARDO GIANNETTI

Para estudioso, no mundo pós-crise, mercados terão dimensão proporcional à economia real.

SÃO PAULO

O mundo aprendeu com seus erros. Especialmente os financeiros. É a conclusão do economista Eduardo Giannetti ao analisar as raízes e os efeitos da crise internacional. Alinhando as medidas recentes dos governos mundiais aos dados históricos, o economista, em entrevista exclusiva ao Jornal do Brasil, garante que o mundo aprendeu com a Grande Depressão dos anos 30 e com a crise dos anos 90 no Japão. E afirma que a atual não empurrará a economia mundial para longos anos sem desempenho satisfatório. ­ Se fosse um gráfico, a de 1929 é um L, com lenta recuperação e esta deve ser em forma de U, com um retorno mais rápido a bons patamares ­ explica.

Como a crise começou? ­

Tenho usado a definição de um filósofo árabe do século XI d.C., chamado Avicena. Diz o seguinte: uma pessoa caminha por uma tábua estreita sem dificuldade enquanto acredita que a tábua está suspensa no solo. Quando se dá conta que a tábua está suspensa sobre um abismo, a pessoa vacila e despenca. O mundo caminhava por uma tábua estreita achando que havia solidez. De repente, veio uma percepção, que começou com o subprime, de que nao havia nada segurando. E a sensação de vertigem apareceu. O mundo financeiro se desequilibrou e caiu da tábua estreita. Veio o governo e colocou uma rede de proteção embaixo para tentar segurar a queda. Ainda estamos num período de volatilidade. O termo técnico é desalavancagem, termo horrível. A palavra popular é ressaca: houve uma embriaguez eufórica de enriquecimento financeiro, e acabou a festa.

Até onde vai a ressaca? ­

A crise é vertiginosa e não dura para sempre. Tem um período limitado, de curta duração. Não dá para precisar o tempo, mas esta volatilidade vai assentar em questão de meses, na pior das hipóteses.

E o que virá depois?

­ O rescaldo. Quais foram os danos, o que será revisto em termos de decisões, o comportamento do consumidor. As pessoas vão perceber que empobreceram, que achavam que tinham uma poupança que não têm, um fundo de pensão que não têm.

Os danos serão perenes? ­

Um resultado permanente da crise que antecipo: vai encolher o tamanho do setor financeiro no mundo. Ele encolheu demasiadamente de 1980 para cá e daqui para a frente, pelo menos por um bom tempo, sua dimensão vai voltar a guardar uma certa proporção em relação à economia real. Haverá menos crédito.

O setor financeiro cresceu de- mais? ­

Talvezadimensãomaiscuriosaseja observar a hipertrofia do lado financeiro em relação ao resto, como cresceu demais o lado das finanças em relação à economia real. Alguns números: dados da consultoria McKinsey Global Consulting mostram que o total de ativos financeiros no mundo ­ incluindo depósitos bancários, títulos públicos e ações ­ era estimado, em 2002, em US$ 96 trilhões. Em 2006, US$ 167 trilhões, crescimento de 74%. A relação entre ativos e o PIB global era 1,2 em 1980. Ou seja, US$ 1,2 para cada dólar do PIB. Em 2006, chegou a 3,5.

O papel dos bancos centrais será redefinido?

­ É parte do papel deles impedir o surgimento de bolhas em mercados de ativos e exageros de alavancagem. No novo modelo deve haver a revisão deste papel, que não é só ficar olhando para a inflação de preços. A inflação de ativos é muito séria e pode levar a crises realmente catastróficas como a que vivemos agora.

O setor financeiro será mais regulado?

­ Sem dúvida, teremos um surto regulatório. Vão desenhar novos instrumentos de regulação, tentar impedir que se repita a extravagância desastrada. Mas enquanto os burocratas do governo estão indo, os executivos financeiros já estão voltando. Eles são muito mais criativos. As regulamentações não têm a mesma criatividade para criar maneiras de especular.

Toda crise deixa situações crô- nicas de desaceleração econômica?

­ Não. Em 1987, houve dias que a Bolsa caiu mais que em 1929. Se olhar em retrospecto, as seqüelas foram mínimas, não houve recessão. A crise do estouro das empresas da Internet, em 2001, trouxe como seqüela para a economia real a mais tênue recessão do pós-guerra dos EUA, com duração de oito meses. E muito superficial. Pode ter crises fortes que não contaminam e comprometem o desempenho econômico de maneira grave.

Como avalia a atual crise?

­ Temos outro tipo de situação. Em 1929, tivemos uma gravíssima crise que comprometeu o desempenho da economia americana por uma década. Erros muito sérios de política econômica foram cometidos. O Japão teve também uma crise financeira, imobiliária, de crédito e de ações, gerou uma recessão que se arrastou por mais de uma década. Ou seja, é uma crise seguida de um quadro crônico de baixo desempenho da economia real. Minha avaliação é que vai ser uma crise intermediária, não vai ser nem um gráfico em V, padrão das crises das quais logo se recupera, mas também não vai em L, caiu e ficou, como 1929 e no Japão. Vai ser em forma de U. A volta tende a ser não tão rápida quanto um V mas não tão arrastada quanto um L. Porque a capacidade de recuperação hoje é muito maior. As coisas são mais rápidas quando caem mas também há um tempo de reação forte.

A experiência ajuda na recu- peração mais rápida? ­

Sim, aprendemos sobre o que não se deve fazer. Não se pode deixar o público perder a confiança no sistema bancário, como aconteceu nos EUA. Tem que tomar medidas emergenciais fortes de política monetária e fiscal, coisa que não foi feita lá em 1929. O então secretário do Tesouro americano, Andrew Mellow, tinha como mantra: "Liquidar, liquidar, liquidar para purgar o crédito apodrecido do sistema." No Japão aconteceu uma coisa muito séria. O governo, em conluio com os bancos privados, tentou maquiar a gravidade do problema do crédito ruim na economia. Mudaram regras contábeis, tentaram jogar para debaixo do tapete o problema e achavam que o sistema ia se recuperar se você enfiasse a cabeça na areia e achasse que não era tão sério assim. Só fizeram o pacote de emergência sete anos depois. Numa visão um pouco otimista, tendo a crer que os erros dos EUA em 1930 e do Japão nos anos 90 não se repetem agora, por mais aguda e grave que seja o tamanho da perda.

Quais os erros que está vendo na condução da crise? ­

OquefoiperturbadornosEUAno período que antecedeu a crise é que havia um crescimento alto sem pressão inflacionária. Então, não tinha porque aumentar os juros. Com o juro baixo, a alavancagem cresceu muito e os ativos financeiros se multiplicaram.

No que esta se diferencia das anteriores? ­

O que assusta desta vez, aí é uma grande novidade, são o volume, a complexidade ­ os produtos financeiros inventados são complexos, pouca gente compreende as suas ramificações ­ e a rapidez ­ é tudo instantâneo no mundo da tecnologia da informação.

O capitalismo vai mudar?

­ Como alguém que estuda história das idéias há muito tempo, bani o termo capitalismo do meu vocabulário. De qualquer forma, o mercado vai continuar sendo o grande mecanismo de geração de recursos na economia dos diversos países do mundo e funciona excepcionalmente bem em muita coisa. Não vamos jogar o bebê fora junto com a água do banho.

No Brasil, como vê as ações do Banco Central? ­

Medidas como a redução dos compulsórios foram fundamentais, assim como leilões de dólares. Tendo a crer que, no geral, o Banco Central está fazendo um papel benéfico, tomando medidas que se justificam numa situação como esta.

E as medidas do Tesouro?

­ Estas me deixam em dúvida. A recente medida provisória que permite a criação de uma empresa junto à Caixa que pode se tornar acionista e até proprietária de construtoras do setor imobiliário... Colocar o Banco do Brasil e a Caixa como compradores e acionistas de bancos e abrir possibilidade de estatização... Acho questionável. Tende a parecer um uso oportunista da crise para avançar a presença do Estado na economia.