O Estado de São Paulo, n.46394, 25/10/2020. Economia, p.B4
Especialistas cobram políticas públicas
Luciana Dyniewicz
25/10/2020
Marcas da Covid. Propostas para reinserção de mulheres no mercado vão de mais vagas em creches a incentivos para contratos com jornada reduzida
Para amenizar a situação das mulheres e permitir que elas voltem ao mercado de trabalho, especialistas apontam alternativas que vão do aumento de vagas em escolas e creches à desoneração temporária para novos contratos com jornada semanal reduzida.
Coordenadora do Núcleo de Estudos de Gênero e Economia da Universidade Federal Fluminense, Lucilene Morandi defende, além da maior oferta de escolas, projetos que recebam idosos durante o dia. “A sociedade entende que a pessoa responsável por cuidar de doentes, idosos e filhos é a mulher. Ela fica sobrecarregada. Isso é histórico e cultural. A solução passa por política pública, desde a questão de creche até estrutura de assistência ao idoso.”
A coordenadora destaca ainda a importância de haver creches e escolas no período integral. “Hoje, as creches não são pensadas para ser também um apoio para as mães. Enquanto elas funcionam das 7h30 às 11h30, ajudam no máximo a mãe a ir ao mercado ou a fazer coisas que uma mulher não consegue com uma criança no colo.”
Enquanto soluções como essas não forem implementadas, a tendência é que as mulheres continuem trabalhando menos horas por dia do que gostariam. Segundo dados do IBGE compilados pela Tendências Consultoria, a taxa de subutilização da força de trabalho (que considera as pessoas desocupadas e as que trabalham menos do que gostariam) entre as mulheres ficou em 34,1% no segundo trimestre deste ano. Entre os homens, foi de 24,9%.
Além da necessidade de políticas públicas, é preciso um trabalho mais ativo das empresas em busca da igualdade de gênero, segundo a economista Regina Madalozzo, coordenadora do Núcleo de Estudos de Gênero do Centro de Estudos em Negócios do Insper.
“Na pandemia, homens e mulheres estão trabalhando mais. A carga é penosa para todos. Mas, para quem tem uma carga adicional com o serviço de casa, acaba sendo insuportável. Os gestores estão prestando atenção a isso?”, questiona a professora.
Regina diz ainda que, no caso das mulheres que acabaram tendo de pedir demissão, não é possível saber se suas carreiras serão recompostas no futuro. “Em algumas situações, pode ser possível continuar do nível em que parou. Mas, dependendo do tempo de afastamento, fica complicado.”
Para Marisa Cesar, presidente do Grupo Mulheres do Brasil, capacitação e acesso a microcrédito também podem ajudar as mulheres, dado que a profundidade de crise obrigará muitas a criarem seus pequenos negócios. “E não estamos pensando na possibilidade de elas juntarem muito dinheiro, mas de poderem sair da vulnerabilidade”, afirma a dirigente do grupo criado pela empresária Luiza Trajano, do Magazine Luiza.
Marisa diz ainda que vários Estados e municípios até têm programas de apoio às mulheres, mas a divulgação é tão precária que a maior parte do público que poderia ser beneficiado nem fica sabendo. “Tem parcela de investimento mal utilizada. Nem estou falando que tem pouca verba, mas a comunicação é mal feita. Tem programas, sim. Talvez não na proporção que dê para atender todas.”
O economista Marcos Hecksher, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), defende a desoneração temporária da folha de pagamentos para novas admissões. Contratos de jornada com até 20 horas de trabalho por semana ficariam isentos de contribuição previdenciária patronal e a alíquota aumentaria em quatro pontos porcentuais por cada quatro horas a mais incluídas no contrato. O limite seriam 36 horas por semana.
Essa desoneração estimularia as empresas a contratar um maior número de funcionários, ainda que cada um acabe trabalhando menos do que gostaria. A ideia é fazer com que mais trabalhadores tenham acesso a um cargo e, assim, a uma renda. “Mulheres tenderiam a ser mais beneficiadas, porque elas já são mais frequentemente contratadas com jornadas parciais”, diz Hecksher.