Título: Voto no olho do furacão
Autor: Arthur Ituassu
Fonte: Jornal do Brasil, 30/01/2005, Internacional, p. A7

Xiitas, curdos, sunitas e americanos se misturam ao pleito que pode redefinir o Oriente Médio Cada voto depositado hoje nas urnas em Bagdá, Kirkuk ou Faluja não só vai decidir o futuro do Iraque. Em muitos sentidos irá determinar o que será do Oriente Médio, uma região na qual poços de petróleo e fanatismo religioso compõem uma mistura explosiva. Daquelas que leva suicidas aos quatro cantos do mundo, atrás de vingança.

De alguma forma o destino escolheu que os iraquianos fossem às urnas, desviando de carros-bombas e morteiros, no momento em que quatro forças, estranhas entre si, se encontram nos arredores da Mesopotâmia, berço da civilização.

O papel principal certamente cabe aos xiitas, grupo majoritário no Iraque, com 60% da população. A última vez em que um xiita esteve no poder em um país árabe - o Irã é persa - foi em uma dinastia egípcia do século 10. Desde a revolução islâmica do aiatolá Khomeini, em 1979, no Irã, o Iraque serviu os países árabes como barreira de contenção do avanço xiita, o que culminou na guerra Irã-Iraque. O conflito durou quase dez anos e matou quase 1 milhão de pessoas.

Teerã não esconde o entusiasmo de ver xiitas no poder em Bagdá. O vizinho sunita e nacionalista Saddam Hussein, financiado durante muito tempo por Washington e Riad (Arábia Saudita), sempre foi um problema de segurança nacional para os iranianos.

No entanto, o que é alento para alguns é pesadelo para outros. A monarquia na Jordânia, por exemplo, já reclamou da interferência iraniana nas eleições de hoje, levantando a hipótese de que os aiatolás estariam arquitetando um ''cinturão xiita'', incluindo a Síria e o Líbano - além do Irã e do Iraque.

Do lado oposto estão os sunitas. Por décadas, a minoria dominou a ferro e fogo o cenário político iraquiano, repreendendo com violência qualquer manifestação descontente de xiitas, concentrados no Sul, ou de curdos, mais presentes no Norte.

Destronados pela intervenção americana de abril de 2003, os sunitas, majoritários em boa parte dos países árabes, resolveram boicotar as eleições no Iraque. Facções mais radicais, como a do jordaniano Al Zarqawi, literalmente vestiram a camisa do terrorismo e declararam guerra ao governo interino, ao pleito e à ocupação americana. O boicote levanta preocupações com relação à estabilidade política de um Iraque multiétnico no período pós-eleitoral.

- Nos últimos 20 anos, os sunitas marginalizaram as comunidades xiitas nos países árabes, acusando-as de serem seguidores do Irã, de seguirem um país que não é árabe. Com esse argumento, muitos governos árabes de maioria sunita e também no Iraque, onde os sunitas são minoria, foram capazes de excluir os xiitas da política - afirma Ammar al-Shahbander, especialista em Oriente Médio do Instituto de Guerra e Paz, em Londres. - Agora, o Iraque, um país árabe, será politicamente comandado por xiitas e por meio de eleições. Não me surpreenderia se outras comunidades xiitas começassem a olhar para o Iraque e não mais para o Irã. O Iraque pode vir a ser um exemplo para essas comunidades que podem começar a pensar em fazer parte da vida política nos países em que vivem, podem começar a exigir participação - completa o analista.

Outros que são parte ativa e interessada nas eleições de hoje são os curdos. Com uma população espalhada por quatro países - Norte do Iraque, Sul da Turquia, Oeste do Irã e ponta Leste da Síria -, os curdos vêem no pleito uma chance de autogovernância com Parlamentos regionais e de um federalismo étnico nacional, depois de terem sido alvo das armas químicas de Saddam Hussein, como em 16 de março de 1988, na cidade de Halabjah, perto da fronteira com o Irã.

- Os curdos estão comprometidos com um sistema federal no Iraque. Mas se os xiitas tentarem impor uma 'tirania da maioria', os curdos vão procurar se separar - afirmou, ao JB, o analista James Phillips, da Heritage Foundation, em Washington. - A separação pode desestabilizar toda a região e levar a uma intervenção turca no Iraque.

The last but not the least (último mas não o menos importante) são os americanos. Com a democracia embaixo do braço e armado até o pescoço, Tio Sam procura sem rumo uma forma de sair de lá e não deixar tudo pior do que estava. A fé é a da transformação pela democracia. Povos democráticos, diz a história, não guerreiam entre si.