Título: Longe de casa e perto do tráfico
Autor: Waleska Borges
Fonte: Jornal do Brasil, 30/01/2005, Rio, p. A17
Depois de fugir da casa do padastro, no Paraná, R., que na época, tinha 13 anos, veio para o Rio de ônibus e de caronas em caminhões. Na cidade, ele conta que vagou pelas praias por três dias quando descobriu uma das leis para morar na rua: fazer parte de uma facção criminosa. Como costumava tomar banhos e fazer refeições, em instituições do Centro, o menino escolheu o Comando Vermelho. A escolha, segundo o menino, também deu-se porque ele costumava a frequentar as proximidades do Morro da Providência. - Logo aprendi que quem rouba no pé da favela e cagueta bandido acaba morrendo. Tive muitas oportunidades no tráfico, até para ganhar R$ 1 mil para trabalhar como vigia do gerente do tráfico na Providência - lembra.
Segundo R., ele fugiu de casa porque era obrigado a roubar com o padastro. O menino conta que também trabalhou como bóia-fria e camelô, antes de fugir para o Rio.
Na rua, o menor também aprendeu a odiar os policiais. R., que ocasionalmente faz pequenos furtos, declara sem pensar quando perguntado se tem coragem de matar:
- Tenho coragem de matar policial. O refém não, depois de roubar eu libero - confessa o menor dizendo que só teme a morte ser for lenta.
- No Rio, as crianças que moram nas ruas vivem em situação de guerra e é muito difícil tirar o sentimento de guerra de dentro delas - observa um educador social.
Após o episódio no qual foi baleado, R. ainda está com a bala alojada na coluna. Hoje, após cinco meses internado num abrigo - onde tatuou os dois braços -, na Praça da Bandeira, o menor conta que está se livrando dos vícios: maconha e tíner. O menor também está fazendo cursos de artes e planeja o futuro no Rio. Segundo R., ele não quer voltar para casa no Paraná.
- Dos menores encaminhados para suas casas, 90% voltaram para rua ou pior para o crime - lamenta um assistente social.
Para R., basta apenas um desejo para ter seus sonhos realizados:
- Eu estava querendo uma família nova, se alguém quiser me dar... - diz.