Título: Violência, uma triste rotina
Autor: Waleska Borges
Fonte: Jornal do Brasil, 30/01/2005, Rio, p. A17

De acordo o juiz Guaraci Campos Vianna, da 2ª Vara de Infância e Juventude, dos 51 menores que morreram de forma violenta no Centro, em 2004, cerca de 30% passaram pelo Juizado - daqueles registrados no Instituto Médico-Legal do Rio. A morte violenta de adolescentes em situação de risco já esteve ligada a grupos de extermínios na Baixada Fluminense e no município do Rio. Na década de 90, as mortes foram tema de uma pesquisa do Centro Latino-Americano de Violência e Estudos Sociais (Claves), da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Os dados não foram atualizados, mas para a socióloga Cecília Minayo, da Fiocruz, o fenômeno está propício a se repetir diante da nova realidade do Rio.

- Hoje quase todos os assaltos e ações do tráfico têm um adolescente incluído. Com isso, há uma idéia de falha do Estatuto da Criança e do Adolescente e da justiça feita pelas próprias mãos, criando o ambiente propício para o extermínio - avalia a socióloga.

Segundo Cecília, atualmente muitos adolescentes se espelham em traficantes, vistos como heróis. Para ela, as autoridades governamentais e instituições não-governamentais ligadas aos direitos da criança e do adolescente deveriam se preocupar mais com a família destes menores.

- A violência na vida destes adolescentes está ocupando o lugar da família - preocupa-se a socióloga.

Cecília Minayo lembra que, na década de 90, a maioria dos menores executados tinham família. Ivone Bezerra de Mello, da ONG Projeto Uerê, no Complexo da Maré, lembra que entre os menores de rua há crianças carentes que trabalham como engraxates e vendedores de bala.

A pesquisadora Simone Assis, da Fiocruz, lembra que a partir de dados do Claves, entre os anos de 1995 e 1996, pesquisadores retornaram às delegacias do Rio para analisar o encaminhamento dos registros policiais de violência doméstica contra crianças.

O estudo concluiu que das 105 ocorrências, cinco viraram inquérito e apenas uma delas se tornou processo.

- A violência policial aparece como uma rotina nos relatos prestados pelos menores infratores. Mas não há interesse no trabalho de investigação - lamenta a pesquisadora.