Título: Menores são exterminados
Autor: Waleska Borges
Fonte: Jornal do Brasil, 30/01/2005, Rio, p. A17

Em um ano, 51 crianças e adolecentes morreram de forma violenta no Centro. ONGs suspeitam de ação planejada

Era o mês de junho do ano passado quando, para conseguir uns trocados, R., 15 anos, resolveu assaltar motoristas num sinal do Campo de Santana, no Centro. Mesmo desarmado, ele conseguiu roubar o motorista de um carro mas, instantes depois, foi detido por um taxista que presenciou a cena. R. foi levado para a Ilha do Fundão pelo taxista, que se identificou como policial e atirou na cabeça do garoto. O desconhecido, que fugiu do local, não imaginava que o menor sobreviveria para relatar mais uma parte do mistério que assombra as crianças e adolescentes em situação de risco no Centro. No ano passado, o Instituto Médico Legal (IML) recebeu 51 corpos de menores recolhidos no Centro do Rio. Destes, nove foram classificados como autos de resistência, sete como encontros de cadáveres, três homicídios dolosos consumados, um como maus tratos e 14 remoções de cadáveres. Do total, 31 casos estão registrados na 6ª DP (Cidade Nova) e 10 na 4ª DP (Central do Brasil). Apesar de ter escapado da execução, a tentativa de homicídio contra R. não entrou nas estatísticas oficiais. Depois de ter sido baleado, ele ficou internado no Hospital Souza Aguiar, no Centro, por 12 dias. No hospital, o menor contou que tinha sido vítima de bala perdida.

O desaparecimento de R. preocupou os funcionários da ONG onde ele era atendido, recebendo refeições, banho e abrigo para dormir. A razão da preocupação, segundo um educador, é o grande número de casos de meninos de rua que desaparecem ou são encontrados mortos na região.

- Eles (meninos de rua) estão sendo caçados e ameaçados. Diariamente temos cuidado de feridos - explica o educador.

Por alguns dias, os funcionários da ONG ainda procuraram pelo menor em hospitais e até no IML. Quando eles pensavam que o corpo havia sumido, R. reapareceu na instituição e contou o que havia acontecido:

- Ele (o taxista) me puxou pela camisa dizendo que era P2 (do serviço reservado da PM). Entrei no táxi à força. No Fundão, ele me mandou deitar com a cabeça no chão e atirou - lembra o menor.

Sem parentes no Rio, depois de receber alta, o menino foi encaminhado para um abrigo de menores. Segundo levantamentos do Souza Aguiar, de janeiro a novembro do ano passado, 20 menores baleados foram atendidos no hospital.

- A cada 20 dias, escutamos histórias de desaparecimento de meninos de rua no Centro - conta um educador.

Consultora da defesa dos Direitos Humanos, a advogada Cristina Leonardo alerta que o número de mortos pode ser muito maior.

- Além do IML, quantos corpos têm como destino os cemitérios clandestinos. Quantos são os corpos queimados ou jogados em bueiros? - indaga a advogada.

Responsável pela ONG Projeto Uerê, no Complexo da Maré, Ivone Bezerra, trabalhou com menores de rua entre os anos de 1981 e 1999. Ela conta que, na época, eram comuns as agressões - por rapazes conhecidos como pitboys - contra crianças e adolescentes que moram na rua.

- Tem muita gente que se sente incomodada com a presença dos menores na rua. Muitas vezes, eles são agredidos a socos, ponta-pés e pauladas. Também havia casos de menores capturados na rua e depois seus corpos apareciam num morro - lamenta Ivone.

O juiz Guaraci Viana, da 2ª Vara da Infância e Juventude, lembra que, em 1996, quando era titular do juizado de menores de Niterói, foi procurado por um adolescente que sofria ameaças.

- Na época, descobrimos que se tratava de uma ação orquestrada por comerciantes da região. Policiais e ex-policiais tinham sido contratados para matar os menores - lembra o juiz.

O delegado Ricardo Teixeira, da 6ª DP (Cidade Nova), onde estão registradas 31 das mortes de menores no Centro, disse que 60% dos casos estão relacionados ao tráfico de drogas. Ele lembra que, recentemente, prendeu um rapaz que matou um menor no Centro com uma barra de ferro. O assassino também era um morador de rua. O delegado desconfia que o desaparecimento de alguns menores esteja ligado aos flanelinhas que atuam no Centro.

- O flanelinha é uma mão-de-obra marginalizada. Há um grupo, no Campo de Santana, que ganha até R$ 10 mil por mês. Se eles se sentirem prejudicados pelos menores, podem agir em represália - supõe o delegado.

Segundo Ricardo Teixeira, por trás do flanelinha, estão fiscais da prefeitura e até policias que aproveitam da situação para extorquir dinheiro.

Procurados pelo Jornal do Brasil , os delegados da 4ª DP, 5ª DP (Gomes Freire), 1ª DP (Praça Mauá) e da Delegacia da Criança e Adolescente Vítima (Dcav) disseram que desconheciam o assunto:

- Estou desde 2003 na delegacia e não me lembro de registros de execução - diz Marcus Druker, da 1ª DP.

O delegado Claide Ribeiro, da 5ª DP, se comprometeu a apurar e fazer o levantamento nos registros de ocorrências. Os comandantes do 13º BPM (Praça Tiradentes), coronel Giovanni Cariprece, e do 5º BPM (Harmonia), Rocha Barros, também não têm conhecimentos de execuções ou desaparecimento de menores no Centro.