Título: Comércio afinado, saída para a crise
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 18/11/2008, Opinião, p. A8
Embora nem todos os caminhos deflagrados na reunião de cúpula do G-20, realizada no fim de semana, mostrem-se auspiciosos, a luz reacendida para a retomada das negociações da Rodada Doha podem significar um passo importante para o Brasil. Estimulados por uma crise que abala mais profundamente os países desenvolvidos, os dirigentes concentraram-se em soluções urgentes. Concluir um acordo comercial internacional o mais rápido possível é, de fato, uma decisão acertada. Diante da iminente desaceleração econômica global, onde o retorno do consumo a níveis estáveis poderá ser capaz de reverter a grave situação, ampliar as relações comerciais entre os países necessita obrigatoriamente entrar na pauta de discussões internacional.
A crise transformou-se em mola propulsora para apresar a conclusão da Rodada Doha, praticamente emperrada desde que foi criada, em 2001, com o objetivo de promover a expansão do comércio e das trocas internacionais como forma de reduzir a pobreza e os focos de conflito no mundo. Confiante no resultado do G-20, a Organização Mundial do Comércio (OMC) já se articula para convocar a reunião para o dia 10 de dezembro, que ganha agora um caráter conclusivo, embasado pelo apoio dos comandantes dos países que reúnem quase 90% do PIB mundial. Especialistas já reconhecem que fechar o mercado com barreiras protecionistas exacerbadas só contribuiria para agravar a situação econômica mundial. O professor titular do Departamento de Economia da UnB, Jorge Madeira Nogueira, concorda: "A única coisa que melhora a condição financeira e econômica dos países é mais comércio" e recomenda que a crise seja aproveitada como uma oportunidade para tentar buscar um comércio mais justo e livre que possibilite maior produtividade e menores custos.
Com as forças econômicas redesenhadas por um novo e tenebroso contexto econômico, onde os países antes mais poderosos estão na berlinda, a discussão em torno dos pontos de Doha terão certamente um novo entendimento e, esperamos, mais convergentes. Diante do consenso internacional, segundo analistas, de que os mercados emergentes seriam os únicos a continuar crescendo, conforme matéria publicada no Estado de S. Paulo ontem, aumentam as chances de nações desenvolvidas considerarem a hipótese de ceder em prol de um acordo conclusivo. Alguns pontos em negociação estão passíveis de mudanças significativas, principalmente em relação ao fim dos subsídios agrícolas dos EUA e da União Européia, um dos principais entraves da negociação. Na outra ponta, figuram os mesmos países industrializados e exportadores que pressionam os emergentes por redução de tarifas.
Como tem sido desde o princípio, o Brasil tem papel de destaque nas negociações de Doha e tende a ser vitorioso em alguns episódios peculiares, como o desafio de promover a conciliação entre seus pares do Mercosul, não tão amistosos por um acordo consensual. O primeiro obstáculo será a vizinha Argentina, que considera temeroso facilitar a importação de produtos industrializados em momento de retração econômica. Compartilham da mesma opinião Índia, China e Indonésia. Caberá certamente ao Brasil ser o grande negociador internacional capaz de conciliar as antagônicas posições em prol de uma necessidade maior: o retorno ao desenvolvimento.