Título: Governo manterá tendência de alta da Selic, dizem especialistas
Autor: Americano, Ana Cecília
Fonte: Jornal do Brasil, 20/11/2008, Tema do Dia, p. A2

Tudo indica que a maior deflação de preços ao consumidor americano desde 1947 ¿ 1% registrado em outubro ¿ vai influenciar ainda mais a redução de juros naquele país. Em compensação, no Brasil, a taxa básica de juros básica (Selic), atualmente em 13,75%, deverá se manter em alta. Pelo menos, é o que dizem os economistas entrevistados pelo JB.

Gilberto Braga, professor de Finanças do Ibmec-RJ, acredita que a redução da taxa de desemprego no mês de outubro, divulgada ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), pode influenciar o aumento da taxa básica de juros em dezembro.

Alta dos preços

¿ Com maior número de pessoas empregadas, o consumo cresce e conseqüentemente há maior pressão sobre os preços e elevação da inflação ¿ disse. ¿ Todos nós sabemos que a política do Banco Central é aumentar os juros para conter a inflação. É provável que isso aconteça no próximo mês.

O economista lembrou ainda que o índice de 7,5% de desemprego é o menor previsto pelo BC. Entretanto, observou que alguns setores já estão reduzindo o número de empregos, como o automobilístico, de autopeças e de produção de commodities devido à crise.

Para Braga, a redução de 1,3% dos salários em relação a setembro já representa um efeito da turbulência financeira internacional.

¿ Os empregadores já estão contratando com salários menores e as pessoas, temerosas com o futuro, aceitam a situação como uma garantia de futuro ¿ explica.

Antônio Carlos Pôrto Gonçalves, economista da Fundação Getúlio Vargas (FGV-RJ), prevê manutenção da Selic e diz que o impacto da inflação será o responsável pelo comportamento da taxa nos próximos meses.

Gonçalves vê a deflação americana como fruto da recessão em que vive aquele país e a redução das taxas de juros refletem a tentativa do Banco Central americano (Fed) de estímulo à economia americana.

¿ No Brasil, aconteceu justamente o contrário: o governo aumentou os juros para conter a demanda interna superaquecida e conter a inflação ¿ explica Gonçalves. ¿ É preciso deixar bem claro que a idéia de achar que o que é bom para os EUA é bom para o Brasil é falsa. Temos de mudar essa postura equivocada. Lá, há uma recessão desde novembro do ano passado. Aqui, a economia esteve muito aquecida.

Paulo Di Blasi, professor de Finanças do Ibmec-RJ, diz que a postura do BC é muito conservadora, por isso também concorda que haverá manutenção da Selic.

¿ Tudo vai depender muito do comportamento da taxa de inflação. Enquanto, o resto do mundo baixou a taxa de juros, nós mantivemos, ou seja, é como se ela tivesse aumentado ¿ explicou Di Blasi.

Salomão Quadros, responsável pelo Índice Geral de Preços (IGP-10) da FGV-RJ, diz que não vê nenhuma preocupação com relação à inflação, principalmente devido ao desaquecimento do consumo. É o único que prevê a redução das taxas de juros, mas só a partir do próximo ano.

¿ A tendência no Brasil é a diminuição da taxa de juros. Não tenho dúvidas que a economia vai começar a desaquecer, os preços vão subir menos e a tendência é que os juros diminuam ¿ disse Quadros, ao fazer uma ressalva: ¿ A menos que o Copom use como justificativa a alta taxa de câmbio para a elevação dos preços.

Para Reginaldo Teiji Gamba, economista do Ibmec, o país não será favorecido com a deflação americana.

¿ Mesmo que os produtos cheguem com preços menores, o câmbio não permitirá que os preços dos produtos americanos fiquem mais baratos ¿ comentou.

Já o professor da FGV-RJ Ricardo Araújo diz que, a médio prazo, o Brasil poderá ser beneficiado com a redução dos preços nos EUA.

¿ Os EUA devem baixar a taxa de juros e os investidores vão procurar os países emergentes para aplicar melhor o seu dinheiro ¿ explica Araújo. ¿ Com a entrada de divisas no país, a tendência daqui um ou dois anos é de valorização do real, conseqüentemente os produtos ficarão mais baratos.

Com relação aos juros, o economista diz que há espaço para a redução da taxa. Mas, diz que o comportamento conservador do BC não permitirá que isso aconteça.