Título: No poder, pela porta da frente
Autor: Bruno, Raphael
Fonte: Jornal do Brasil, 23/11/2008, País, p. A10

Legendas da base são as que mais atraem novos filiados, mas oposição prepara contra-ataque.

BRASÍLIA

Impulsionados pela chegada do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao poder, em 2003, partidos da base aliada, principalmente PT e PCdoB, promoveram uma verdadeira reconfiguração da inserção partidária na sociedade brasileira. De acordo com dados do Tribunal Superior Eleitoral, ao longo dos últimos seis anos legendas da base governista ganharam musculatura não só nas urnas, como demonstrado pelas eleições municipais passadas, mas também na capacidade de atrair militantes. Afastada do poder central, a oposição não conseguiu acompanhar o ritmo de novas filiações e vem ficando para trás. A promessa de líderes oposicionistas, no entanto, é de que o jogo está prestes a virar.

Em outubro de 2002, por exemplo, mês em que Lula foi eleito e pouco antes do partido assumir o comando do Palácio do Planalto, o PT contava com 828 mil filiados (confira quadro). Em outubro de 2008, seis anos depois, esse número saltou para 1,16 milhão, crescimento de 40%.

A captação de novos militantes foi o suficiente para que a legenda ultrapassasse, no período, outro partido da base, o PDT, e praticamente empatasse em número de filiados com o rival PSDB. Os petistas conseguiram reduzir uma diferença de 200 mil filiados em relação aos tucanos, no final do segundo mandato do então presidente Fernando Henrique Cardoso, para algo que, hoje, fica em torno de 20 mil.

Outros partidos

Fiel escudeiro do PT, o PCdoB, proporcionalmente, acumulou militantes de maneira ainda mais intensa. No mesmo período, o número de filiados do partido cresceu 56%. Foi de 151 mil para os atuais 237 mil. Evoluções semelhantes acompanharam outros partidos da base, como o PSB e o PR, que na posse de Lula, em 2003, ainda com o nome de PL, abrigava o vice-presidente José Alencar.

Enquanto aliados aproveitaram os anos de governo Lula para ampliar a inserção na sociedade, a oposição enfrentou dificuldades para atrair novos militantes. O DEM, mais agressivo opositor de Lula, teve o número de filiados reduzido e hoje mal se sustenta acima da simbólica marca de um milhão de correligionários. O parceiro PSDB teve desempenho melhor, mas ainda inferior ao obtido por governistas como PT e PCdoB.

¿ A explicação para esse fenômeno é bem simples ¿ arrisca o deputado federal Raul Jungmann (PPS-PE). ¿ Os partidos governistas crescem mais porque têm acesso a verbas e cargos, atraindo filiados interessados na partilha desses recursos. Sempre quem estiver no governo vai inflar e quem estiver fora vai "desinflar".

O PPS de Jungmann é uma das poucas exceções à regra, funcionando hoje como uma espécie de oásis, em termos de novos militantes, dentro da abatida oposição. O partido apoiou Lula no segundo turno das eleições de 2002 contra o tucano José Serra, integrou o governo no primeiro ano mas rompeu com o PT ainda no final de 2003. Junto com a saída da coalizão, perdeu caciques do peso que preferiram continuar com a simpatia do Palácio, como o então ministro Ciro Gomes e os governadores Blairo Maggi, Ivo Cassol e Paulo Hartung. Figurões da política nacional que levaram consigo para seus novos partidos um batalhão de militantes.

Profissionalização

O trabalho de recuperação, diz Jungmann, foi uma verdadeira maratona "contra a corrente" e envolveu "esforços gigantescos" de campanhas de filiação. O processo foi comandado pelo hoje secretário-geral do partido e ex-deputado federal Rubens Bueno (PR). O partido apostou em novas tecnologias na tentativa de atrair militantes e profissionalizou o trabalho de recrutamento.

Para cada diretório estadual foram estabelecidas metas relacionadas à criação de diretórios municipais. Como o surgimento de diretórios envolvia novas filiações em municípios onde o partido não estava presente anteriormente, o cumprimento das metas possibilitou ao partido escapar da tendência que arrastou a oposição para a estagnação.

¿ Nesse período de vacas magras, esse processo nos possibilitou depurar o partido ¿ avalia Jungmann. ¿ Hoje estamos muito mais preparados e organizados para crescer com bases reais.

O otimismo do PPS contaminou o parceiro PSDB e está baseado num fator que ganhou o nome, nos círculos oposicionistas, de "expectativa de poder". A idéia é a de que o favoritismo do governador de São Paulo, José Serra, à sucessão presidencial, aliado às novas regras de infidelidade partidária, pode estar preparando um verdadeiro desembarque de políticos e militantes no campo contrário ao governo. Na esperança de capitalizar a tendência, os tucanos já preparam massivas campanhas de filiação para 2009.

¿ Mas não é uma questão só numérica ¿ defende o deputado federal José Aníbal (PSDB-SP). ¿ Estamos atrás de filiados dedicados, atentos, envolvidos, capazes de atuarem como interlocutores com a sociedade.