Título: Repórter apela 55 dias após captura
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 02/03/2005, Internacional, p. A7

Abatida, Florence Aubenas, do jornal francês Libération, pede ajuda a deputado e afirma sofrer problemas físicos e emocionais

Reprodução de TV ¿ AFP Florence Aubenas faz apelo em inglês. Família recebeu outra fita na semana passada, mas a jornalista não fazia referência ao deputado

PARIS - A jornalista francesa Florence Aubenas, desaparecida há 55 dias no Iraque, apareceu ontem em um vídeo , no qual fez um apelo desesperado por sua libertação ao polêmico deputado francês Didier Julia. Muito abatida e com o cabelo despenteado, Florence disse estar sofrendo problemas físicos e emocionais.

Florence, de 43 anos, foi capturada por rebeldes quando se dirigia ao hotel em que estava hospedada, no centro de Bagdá, junto a seu intérprete iraquiano, Hussein al Hanoun.

- Meu nome é Florence Aubenas. Sou francesa. Sou jornalista e trabalho para o jornal Libération. Ajudem-me, é urgente - afirma a enviada, em inglês, nitidamente atemorizada.

Sentada, com as pernas entre os braços e o olhar fixo, a jornalista acrescenta que sua saúde ''está em muito mau estado'' e que também está ''muito mal psicologicamente''.

- Agora é preciso negociar e rápido - disse a mãe da repórter, que afirmou estar perturbada com as imagens, mas aliviada por saber que está viva.

A mensagem de esperança da mãe contrasta com o desconcertante pedido de ajuda ao parlamentar Didier Julia.

Deputado da governante e conservadora União por um Movimento Popular (UMP) e com estreitas relações no Iraque de Saddam Hussein, Julia se envolveu em polêmica após uma fracassada iniciativa de mediação no seqüestro dos jornalistas Christian Chesnot e Georges Malbrunot. Os reféns foram mantidos em cativeiro durante quatro meses pelo Exército Islâmico no Iraque, até serem libertados no Natal.

Julia, que poderá ser processado pelo incidente, disse ontem que pediria a opinião da Comissão de Leis da Assembléia Nacional (Câmara dos Deputados) para saber se pode ou não intervir no caso, mas o governo já informou que se opõe a qualquer ''iniciativa pessoal''.

- São pessoas que me conhecem e que provavelmente conheço - disse sobre os seqüestradores. - Há 40 anos vou ao Iraque.

Julia revelou que há algumas semanas soube, por seus colaboradores, que em breve seria exibido um vídeo da jornalista, mas afirmou que desconhecia o conteúdo.

- Há um mês que o governo francês sabe onde ela está - acusou Julia. - Os ministros são incapazes de fazer algo.

O primeiro-ministro Jean-Pierre Raffarin informou que o governo está analisando o vídeo e sua autenticidade, assim como a relação com outra gravação recebida anteriormente e exibida na quinta-feira apenas aos parentes da jornalista.

Segundo fontes do governo, na outra fita a jornalista pedia ajuda, mas não fazia qualquer menção ao deputado.

As imagens divulgadas ontem, que não têm data nem revelam a autoria do seqüestro, estão sendo analisadas pelos serviços especializados do Ministério da Defesa. Aspectos técnicos e lingüísticos estão sendo detalhadamente estudados.

O diretor do Libération, Serge July, afirmou que Florence foi alvo de uma ''manipulação'', pois acredita que a jornalista foi obrigada a pedir a ajuda do parlamentar.

- Isso nos leva a fazer muitas perguntas - disse.

A ONG Repórteres Sem Fronteiras manifestou repúdio ao tratamento dado à repórter e pediu que a opinião pública, os meios de comunicação e as autoridades ouçam o apelo.

Na internet, o representante da Al Qaeda no Iraque, o jordaniano Abu Musab al-Zarqawi, assumiu a autoria do ataque perpetrado segunda-feira no país, que matou 125 pessoas. O atentado foi o mais sangrento desde o início da invasão. O comunicado se refere ao suicida como ''corajoso mártir'' e às vítimas como ''apóstatas''.