Título: Estreitamento das relações comerciais
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 25/11/2008, Opinião, p. A8

A geopolítica mundial passa por uma metamorfose acelerada pela crise financeira global. As relações políticas e econômicas em nada se parecem com a divisão na era da guerra fria, onde o mundo coexistia em dois lados radicalmente antagônicos. Hoje, a crise que arrasa os mercados financeiros prova que, daqui em diante, quanto mais diversificadas as relações comerciais, mais longe dos efeitos nocivos da turbulência a economia de um país estará. Neste cenário, quanto mais plural for a pauta de exportações e maior a horta de relações mais vistosa será a trilha seguida. A visita ao Brasil do presidente russo, Dmitri Medvedev, que desembarcou ontem no Rio para dois dias de visita oficial com uma agenda comercial intensa, ocorre sob este espírito.

A Rússia movimenta-se agora para reforçar a sua nova posição de potência emergente dentro do grupo Bric e recriar uma nova zona de influência. A turnê do presidente Dmitri Medvedev pelo Peru, Brasil, Venezuela e Cuba é mais que um desafio aos Estados Unidos. A escolha desses países embute uma visão ampla que inclui também a saída para a crise econômica com a potencial conquista de novos parceiros aduaneiros.

A iniciativa do governante russo gerou uma boa dose de expectativas entre os brasileiros. Foi recebida com um sinal positivo para o fechamento de contratos benéficos em diversos setores da economia. Acompanhado dos ministros da Energia e Agricultura, além de dirigentes da agência espacial russa, Roscosmos, e das companhias petrolíferas Gazprom e Lukoil, Medvedev enfrentará uma maratona de reuniões que incluem na pauta de discussões pontos que vão da cooperação técnica bilateral a questões internacionais, como a crise financeira. Há alguns anos, o Brasil já superou Cuba como maior parceiro comercial da Rússia na América Latina. Segundo reportagem publicada ontem no Jornal do Brasil, os negócios comerciais entre Brasil e Rússia totalizaram US$ 5,2 bilhões ano passado.

No aspecto relativo às exportações brasileiras de carnes de aves e suínos para o país europeu, a visita do presidente russo é aguardada com grande expectativa pelo setor. A política de cotas de importação de carnes adotada pela Rússia desde 2005, com base no histórico de importação do país entre os anos 2000 e 2003, quando a participação brasileira era inexpressiva, reduz a importância do Brasil na pauta de importação russa. Segundo a Gazeta Mercantil publicou ontem, os embarques de carne suína do Brasil para a Rússia recuaram do patamar de 400 mil toneladas em 2005 para 250 mil toneladas este ano. O artifício de usar as cotas de outros países não tem atendido às necessidades dos exportadores brasileiros que depositam na presença do dirigente russo uma boa oportunidade para reverter essa situação. Do outro lado da moeda, estão os acordos de cooperação nos setores aeroespacial, nuclear e de defesa, com uma grande investida da Rússia em vender helicópteros, veículos blindados e outros equipamentos ao Brasil.

De olho nessa crescente relação bilateral, a parceria entre o Jornal do Brasil e o Rossijskaya Gazeta, principal jornal da Federação Russa, traz uma grande contribuição para afinar as relações entre os dois países e vale como incentivo para um intercâmbio ainda mais crescente.