Título: O lugar da continuidade
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Fonte: Jornal do Brasil, 26/11/2008, Opinião, p. A8
Em tempos de turbulência e incerteza econômica, o presidente eleito dos Estados Unidos, Barack Obama, deixou a mudança ¿ seu mote de campanha ¿ de lado e tem apostado na continuidade para enfrentar o futuro. Ao mesmo tempo em que passa uma mensagem de calma ao mercado, a escolha de sua equipe econômica, capitaneada pelo secretário do Tesouro Timothy Geithner, deixou alguns especialistas apreensivos. Geithner, dizem, é um dos responsáveis pelo agravamento da crise econômica, ao ter sido contra o socorro financeiro ao banco Lehman Brothers, antes de meados de setembro, quando ainda era possível evitar o pior. Segundo reportagem do jornal The New York Times, ele estava sentado à mesa de negociação, ao lado do atual secretário do Tesouro, Henry Paulson, porque é presidente do Federal Reserve de Nova York ¿ o epicentro da crise. E é dele o plano de auxílio à seguradora AIG, semanas mais tarde.
O xerife da política econômica que precisa salvar os EUA não é um forasteiro em Washington, tampouco no Tesouro. Geithner ocupou posições na casa em 1988 e 10 anos mais tarde, até 2001, no governo de Bill Clinton. Sua experiência é garantia para Obama de que os cuidados da futura administração democrata contra a crise já estão em vigor, como provou o novo pacote de US$ 800 bilhões proposto por Paulson e pelo Federal Reserve. É evidente o dedo de Geithner ¿ e do restante da equipe econômica de Obama ¿ já no socorro para a revitalização do crédito, anunciado ontem.
A antecipação de medidas é importante, pois teorizar sobre saídas para a crise não será suficiente. A equipe econômica que assume em Washington terá de fazer acordos com Wall Street, negociar as parcelas dos socorros de bilhões de dólares e reestruturar setores inteiros para que o país não quebre como as empresas. Isso tudo ao mesmo tempo em que levanta fundos para pôr em prática as promessas de campanha de Obama: tornar a economia ecologicamente mais sustentável, reconstruir escolas, melhorar a infra-estrutura nacional e o cenário para os fabricantes de carros. Apesar de o Orçamento estar apertado, é justamente nos momentos de crise que se consolidam as possibilidades de mudar o rumo do que não está dando certo.
Ainda assim, pelo menos uma promessa de campanha não deve ser implementada de imediato: o aumento de impostos para os mais ricos. Este foi um ponto no qual o democrata tocou insistentemente. Agora se vê obrigado a mudar de idéia. Ampliar o peso do fisco no bolso de quem tem, de fato, dinheiro poderia provocar mais recessão porque, diante de tantas incertezas, ninguém sabe em que medida afetaria também empresários de médio porte, nos quais se aposta a retomada da geração de empregos. Sua equipe econômica concorda. É melhor, por ora, promover apenas o estímulo à economia. Esta é uma amostra de porquê o time foi bem recebido tanto por democratas quanto por republicanos.
Até agora, a menos de dois meses de entrar na Casa Branca, Obama tem agido mais com pragmatismo do que com mudança. Por enquanto, também, os americanos o apóiam: uma pesquisa da ABC mostra que 44% acham que ele vai melhorar a economia (antes da eleição, este número ficava em 22%). E 67% aprovam a maneira com a qual o democrata vem conduzindo a transição. Mas convém lembrar: os americanos não elegeram Obama presidente por valorizarem o pragmatismo. Votaram por mudança. A continuidade só serve para a transição.