Título: No canto oposto, a base governista
Autor: Correia, Karla
Fonte: Jornal do Brasil, 07/12/2008, País, p. A6

Propostas contrárias aos interesses do Palácio do Planalto ganham força entre aliados

Karla Correia

BRASÍLIA

Habitualmente fiel à orientação do Palácio do Planalto, a bancada governista na Câmara e no Senado têm dado claras demonstrações de rebeldia no Parlamento em discussões de matérias especialmente caras ao governo. Se de um lado a crise econômica teve o condão de promover um relativo consenso entre aliados e oposicionistas em torno da série de medidas provisórias editadas para amenizar o impacto do sobe e desce das bolsas na economia brasileira, do outro propostas que desagradam o Planalto ganharam força no meio de uma base ainda de ressaca do pleito municipal, dividida nos arranjos da disputa pelas presidências das duas Casas do Congresso e irritada com os afagos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao governador tucano de São Paulo, José Serra.

Agraciado com a operação da venda do Nossa Caixa ao Banco do Brasil por R$ 5,4 bilhões ¿ providencial injeção de recurso no governo paulista, dois anos antes da sucessão presidencial ¿ Serra foi brindado com uma vitória importante sobre o governo com o adiamento da votação da reforma tributária. Principal opositor da proposta, o governador de São Paulo contou com a ajuda da própria base de sustentação do Planalto no Congresso. O ultimato dado por Lula à sua bancada para votar a reforma ainda neste ano, com ou sem acordo, caiu no vazio. E a base empurrou a apreciação do texto-base da reforma para março de 2009 ¿ ou para as calendas gregas, na opinião de aliados menos otimistas.

A mesma bancada ajudou a aprovar o texto-base da indigesta ¿ para o governo ¿ proposta de emenda constitucional (PEC) que altera o rito de tramitação das medidas provisórias, encarada pelos presidentes da Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP) e do Senado, Garibaldi Alves Filho (PMDB-RN) como bandeira de seus mandatos. Apesar da pressão contrária do Planalto, o texto retira das MPs o poder de trancar a pauta da Casa onde estiver tramitando, 45 dias depois de sua edição. Na votação dos destaques, a oposição deve tentar acabar com a necessidade de maioria absoluta para inverter a pauta quando a MP figurar como primeiro item em regime de urgência. E, no Senado, a promessa é endurecer ainda mais a tramitação do instrumento.

A irritação de setores da base, sobretudo do PT, com o relacionamento entre o presidente Lula e o governador José Serra ajuda a compor o pano de fundo da rebeldia da base em relação ao Palácio do Planalto. O partido está incomodado com a injeção de recursos no governo paulista, que dará a Serra condições de, em meio à crise, implementar projetos que gerarão dividendos eleitorais na corrida pelo Palácio do Planalto, em 2010.

O anúncio do projeto de expansão do metrô na zona norte da capital paulista pelo prefeito Gilberto Kassab (DEM) acirrou ainda mais os ânimos da bancada petista na Câmara. Defendida pela candidata derrotada à prefeitura de São Paulo Marta Suplicy (PT), a proposta foi ironizada por Serra e Kassab, que chamaram a expansão de "puxadinho" do metrô. A obra será financiada em parte pela arrecadação com a venda do Nossa Caixa. Além disso, o governo federal liberou crédito extraordinário de R$ 450 milhões para o metrô paulista.

¿ O Serra avacalhou a proposta da Marta durante a campanha e agora vem copiar a idéia dela, financiando a obra com dinheiro do governo federal ¿ dispara o deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP), um defensor do presidente em meio às críticas do partido sobre a aproximação entre Lula e Serra. O parlamentar, contudo, reconhece que o humor dos aliados no Congresso tem afetado o desempenho da base. ¿ Um partido do tamanho do PT sempre terá descontentes ¿ desconversa.