Título: Câmbio representa obstáculo para mudança
Autor: Totinick, Ludmilla; Costa, Gabriel
Fonte: Jornal do Brasil, 05/12/2008, Tema do Dia, p. A2
O real desvalorizado representa obstáculo à guinada na política monetária, de acordo com Carlos Thadeu de Freitas, ex-diretor do Banco Central no governo José Sarney (1985-1989). Contrário à proposta de incorporar a autoridade monetária aos esforços para reaquecer a economia ¿ como os BCs da Europa e Estados Unidos ¿, Thadeu de Freitas acredita que, enquanto o dólar estiver em alta, é muito difícil que o BC baixe os juros. O ex-diretor do BC avalia ser possível que a Selic se mantenha inalterada ou até mesmo suba na próxima reunião.
¿ A pressão cambial está muito forte e, se houver uma redução da taxa de juros, haverá maior incentivo para saída de mais dólares do país ¿ alerta. ¿ O Banco Central vive uma queda-de-braço com o mercado, e a questão é não mexer mais nas reservas.
Mas faz uma ressalva que, se a atividade econômica se mantiver fraca, é muito provável que haja redução da Selic. Alguns países, lembra o economista, tiveram de subir os juros, ao citar a Rússia como exemplo. Em compensação, ressalta que os países desenvolvidos já têm baixado os juros. Para Thadeu de Freitas, é uma decisão muito difícil para o Banco Central.
Com relação à grande saída de dólares para o exterior, o ex-diretor do BC explica que a evasão de divisas se deve à demanda criada pela crise nos Estados Unidos e na Europa. Para Thadeu de Freitas, o grande ponto em questão é o limite das reservas.
¿ O BC não está conseguindo baixar o valor da moeda americana e, por isso, muitas reservas estão sendo utilizadas constata. ¿ Se não houver uma normalização da entrada de dólares no país o BC poderá aumentar a Selic, ao ressaltar que todos os ativos dos países emergentes sofrem queda.
Para Ernâne Galvêas, ex-ministro da Fazenda e ex-presidente do BC, uma possível reversão na tendência da Selic representaria a convergência por parte do BC em relação a outras medidas do governo contra a crise. Esse processo, no entanto, não ameaçaria a autonomia da autoridade monetária.
¿ A independência do Banco Central é outra coisa, não está em jogo. Ela está na taxa de câmbio, nas intervenções na política de redesconto. Baixar a taxa de juros é uma questão de coerência ¿ diz o ex-presidente do BC.
De acordo com Istvan Kaszar, economista chefe da Associação Nacional das Instituições de Crédito (Acrefi), a redução da taxa de juros não representaria uma medida suficiente para enfrentar a crise financeira mundial. (L.T.) e (G.C.)