O Globo, n.31992 , 10/03/2021. Sociedade, p.11
Saúde pede doses para a China: "vacinação pode ser interrompida"
Daniel Gullino
Leandro Prazeres
10/03/2021
Bolsonaro e Pazuello terão de se explicar a STF e Congresso sobre recursos a estados e o cronograma da imunização no país
Oprograma nacional de vacinação contra a Covid-19 no país corre o risco de ser interrompido por falta de vacinas. A afirmação foi feita pelo secretário-executivo do Ministério da Saúde, Élcio Franco, em uma carta endereçada ao embaixador da China no Brasil, Yang Wanming, ontem. Na carta, a que O GLOBO teve acesso, Franco pede auxílio de Pequim para a aquisição e envio de 30 milhões de doses da vacina produzida pelo laboratório Sinopharm ainda no primeiro semestre.
O pedido de ajuda aos chineses acontece emmeio ao aumento na velocidade da pandemia eà demora no processo de vacinação no país. Dados do consórcio de veículos de imprensa, do qual O GLOBO faz parte, apontam que somente 4,13% da população brasileira, ou 8,7 milhões de pessoas, foi vacinada contra a Covid-19.
Na correspondência, Franco ressalta que o Brasil enfrenta uma nov avariante do coronavírus eque a vacinação seria a solução para impedir que ela se espalhe pelo mundo, mas alerta que o programa de imunização pode ser paralisado.
“A campanha nacional de imunização, contudo, corre risco de ser interrompida por falta de doses, dada a escassez da oferta internacional”, diz um trecho da carta. “Por conta disso, o Ministério da Saúde vem buscando estabelecer contato com novos fornecedores, emespeci ala Sinopharm, cuja vacina é de comprovada eficácia contra a Covid-19”.
O cerco e as pressões sobre o Poder Executivo apertam diante do colapso dos hospitais em vários estados brasileiros e mais reflexos da má gestão sobre os recursos da saúde durante a pandemia: dados do Conselho Nacional dos Secretários de Saúde (Conass), com base em monitoramento de portarias publicadas no Diário Oficial da União, acessados pelo G1, mostram que o número de leitos de UTI exclusivos para pacientes com Covid-19 financiados pelo Ministério da Saúde teve uma queda de 71% de julho de 2020, no primeiro pico da pandemia no país, ao início de março deste ano, quando o Brasil marca recordes de mortes diárias pelo coronavírus. Segundo dados do consórcio de veículos de imprensa, o país bateu ontem novo recorde: 1.954 óbitos em 24 horas.
Ontem, o ministro Ricardo Lewandowski, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou ontem que o presidente Jair Bolsonaro se manifeste, em cinco dias, sobre uma ação que pede o repasse de recursos aos estados para a compra de vacinas contra a Covid-19. Também ontem, os presidentes da Câmara, Arthur Lira (PPAL), e do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), enviaram um ofício ao ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, cobrando explicações sobre o cronograma de vacinação contra a Covid-19.
A ação a que se refere Lewandowski foi apresentada pelo Rede Sustentabilidade, que pediu à Corte, no último dia 2, para determinar que o governo federal envie verbas aos governos locais para a compra de imunizantes. O partido defendeu que o repasse pode ser de forma direta ou indireta, por meio de consórcios ou com o uso de créditos extraordinários, caso fique demonstrado que o governo federal não será capaz de promover diretamente a vacinação da população em 10 dias.
“Transferir apenas a responsabilidade sem o respectivo recurso orçamentário para fazer frente ao encargo é um verdadeiro beneficiamento da própria torpeza: a União decide não agir, o que transfere a responsabilidade — que era sua — para os demais entes, os quais não têm recursos financeiros”, argumentou o partido.
Lewandowski também definiu que o pedido de liminar da sigla será levado diretamente a julgamento no plenário da Corte, “considerando a relevância da matéria e de seu especial significado para a ordem social e a segurança jurídica”.
Ontem, a Câmara e o Senado também cobraram um retorno do ministro da saúde, Eduardo Pazuello, sobre o andamento do cronograma de vacinação. Lira e Pacheco questionaram se o cronograma apresentado no sábado pelo secretário-executivo do Ministério da Saúde, Elcio Franco, está mantido e pediram explicações no caso dele ter sido alterado. No ofício, eles citam a “urgência que nos impõe a pandemia”, devido à “crescente taxa de óbitos por dia”, e pedem para a resposta ser enviada em até 24 horas, para que a Câmara e o Senado “possam adotar as providências cabíveis no combate à pandemia”. Em caso de alterações, os dois pedirama apresentação de um novo calendário de vacinação.
Arthur Lira também enviou, ontem, uma carta a Wanming. Nela, fez um “apelo” para que os chineses “tenham um olhar amigo, humano, solidário e nos ajudem a superara pandemia ”.
Após atritos do governo com a China, e com Wanming em particular, Lira disse que “o governo brasileiro não é apenas o Executivo, mas também o Legislativo e o Judiciário”.
O Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) anunciou ontem que irá solicitara o Supremo Tribunal Federal( STF) e à Procuradoria-Geral da República a abertura de uma investigação sobre a atuação de Bolsonaro e de Pazuello no enfrentamento da epidemia causada pelo novo coronavírus. O pedido será para apuraras responsabilidades do presidente nas esferas administrativa e criminal.
CAOS NOS HOSPITAIS
Ontem, o G 1 divulgou dados do Conselho Nacional dos Secretários de Saúde (Conass), com base em monitoramento de portarias publicadas no Diário Oficial da União, indicando que o número de leitos de UTI para pacientes com Covid-19 financiados pelo Ministério da Saúde teve uma redução de 71%, comparando-se dois momentos de pico da pandemia: julho de 2020 e o início de março deste ano. Segundo o levantamento, eram 11.565 leitos financiados ou habilitados pelo governo em julho do ano passado; este mês foram 3.372.
A queda ocorre em um contexto de colapso em hospitais de todas as regiões do Brasil. Segundo levantamento realizado pelo GLOBO na última sexta-feira, mais de 1.500 pacientes aguardavam vagas para UTI em 11 estados brasileiros.
Segundo o presidente do Conass e secretário de Saúde do Maranhão, Carlos Lula, o orçamento de 2021 do Ministério da Saúde não levou em conta que o país ainda estaria na pandemia. O secretário diz que, nos próximos meses, cerca de 7 mil leitos de UTI serão financiados pelo ministério. Foram liberados R$ 153,6 milhões para custear 3.201 novos leitos de UTI em mais de 150 cidades de 22 estados.