Correio Braziliense, n.21116 , 18/03/2021. Política, p.3
Procura-se vaga para Pazuello
Denise Rothenburg
18/03/2021
PODER » O presidente Jair Bolsonaro busca uma forma de manter no governo o general, que deixará o Ministério da Saúde, para blindá-lo com foro privilegiado, diante dos processos que o militar responde pela má gestão na pandemia do novo coronavírus
Desgastado por seguir à risca a política presidencial para a gestão da pandemia, o general de divisão Eduardo Pazuello virou um problema para o presidente Jair Bolsonaro com a futura saída dele do Ministério da Saúde — pasta que passará ao comando do cardiologista Marcelo Queiroga. Os generais de quatro estrelas não se mostram lá muito satisfeitos em ver um três estrelas em um cargo como a Secretaria de Assuntos Estratégicos, para a qual está cotado. Também não há lugar de destaque para Pazuello no Exército. No Planalto, entretanto, considera-se necessário dar abrigo ao general para que mantenha o foro privilegiado, pois responde a inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF) por causa da gestão da crise sanitária. Nesse sentido, líderes próximos a Bolsonaro consideram que está difícil fechar essa equação.
Desde o ano passado, quando Pazuello foi desautorizado por Bolsonaro no episódio da compra de vacinas do Butantan e permaneceu no cargo, os militares defendem, sem sucesso, a passagem do general para a reserva. O sonho dele, porém, quando saísse do ministério, era retomar o lugar no Exército, sem necessidade de ficar na reserva. Agora, com a imagem abalada por causa do colapso na Saúde, até esse retorno está ameaçado.
Aos 58 anos, Pazuello resiste a passar para a reserva e quer terminar seu período como general de divisão apenas ao completar a idade-limite, de 64 anos. Embora alguns generais defendam que ele vá para a reserva, seus colegas de quatro estrelas não vão enxotá-lo da Força. Afinal, neste período da pandemia, Pazuello cumpriu a missão mais difícil: coordenar a gestão da crise sanitária de um governo que, na maior parte do tempo, agiu como se a tragédia não existisse.
Fidelidade
Amigos de Pazuello dizem que ele seguiu à risca tudo o que foi pedido pelo Planalto na gestão da Saúde. O próprio Bolsonaro reconhece isso. Tanto é que, nos últimos dias, fez questão de deixar claro que Pazuello termine as providências que adotou em relação às vacinas, como a viagem ao Rio de Janeiro para receber os dois milhões de vacinas da Fiocruz. Além disso, colocou o ministro na conversa com a médica Ludhmila Hajjar, que, sondada, recusou assumir o Ministério da Saúde. O chefe do Executivo ainda divulgou que a troca na pasta era para colocar no lugar um médico que pudesse conversar de igual para igual com outros profissionais da saúde que dominam as secretarias estaduais.
Dentro do governo, há o reconhecimento de que, se o país até agora só vacinou 5% da população, a culpa não pode ser atribuída a Pazuello. Porém, ninguém vai jogar a conta em Bolsonaro. A avaliação é de que as circunstâncias da falta de vacinas no mundo provocaram essa situação.
Mas há um problema: politicamente, o ministro é acusado de má gestão e, diante das 6.045 mortes registradas nesses últimos três dias, alguém no governo federal levará sua parcela de culpa. Com a intenção de proteger o presidente, o desgaste sobrará para Pazuello, enquanto o sucessor ficará com o papel de tentar salvar a pátria.
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Mal-estar no Exército
Vicente Nunes
18/03/2021
A demissão do general Eduardo Pazuello do Ministério da Saúde está causando constrangimento no alto escalão do Exército. A visão predominante entre os generais é a de que não há espaço para o retorno dele à Força. O caminho seria a reserva.
Generais dizem que a estrutura do Exército está toda montada. Portanto, seria um transtorno ter de acomodar Pazuello. "Como ninguém quer abrir mão do cargo que ocupa atualmente, o melhor é que ele vá para a reserva", disse um militar, sob a condição de anonimato. "Mas ele tem o direito de voltar, se quiser", acrescentou.
Outro ponto que pesa contra a volta do quase ex-ministro ao Exército é a questão política. Pazuello na Força significa trazer para dentro do quartel todo o desastre que foi a gestão dele no Ministério da Saúde.
Segundo informações de dentro do Exército, Pazuello, automaticamente, terá de passar para a reserva no próximo ano. É que completará o tempo dele como general intendente. Ele é general três estrelas, não tem mais como ser promovido. Pelas regras, pode ficar, no máximo, quatro anos como general três estrelas, ou oito como oficial general.
"O quadro ideal é que Pazuello entre logo para a reserva, sobretudo se quiser continuar no governo", afirmou outro militar. Ele destacou que a exoneração do militar do Ministério da Saúde deve ocorrer em um ou dois dias, no máximo.
"Dentro do Exército, pouco importa se Pazuello ficará no governo, ou não. O que os generais querem é que ele vá rapidamente para a reserva, para descolar a imagem dele da Força", enfatizou um terceiro militar. "Queremos que ele deixe de ser problema. Será um alívio vê-lo fora do Ministério da Saúde."