Título: Apogeu da crise longe do Brasil
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 11/12/2008, Opinião, p. A8

A crise financeira internacional demorou um pouco mais a aportar em solo brasileiro. Enquanto economias de países desenvolvidos começavam a ruir com o estouro da turbulência, diante das sucessivas quebras de grandes instituições financeiras, a nossa continuava em pleno ritmo de crescimento. Esta foi a leitura dos dados divulgados pelo IBGE ontem. Até o terceiro trimestre, a economia brasileira cresceu 6,8% este ano em relação ao ano passado. O crescimento de 1,8% no período quando comparado ao anterior prova o quanto a economia brasileira estava aquecida. São números vistosos, que conduziriam o país a um resultado chinês em 2008, caso a crise não tivesse se tornado tão aguda a partir da segunda quinzena de setembro. Além de robustos, os resultados superaram em muito as expectativas de economistas, que apostavam em expansão de 1,2% do PIB no trimestre e 5,6% no ano. Enquanto isso, no olho do furacão da crise, países industrializados amargaram declínio e mergulharam na desaceleração.

Os números do crescimento escancaram a percepção de que o país viveu um franco aquecimento da economia. Os pontos que mais pesaram no cálculo envolvem o aumento do consumo: famílias ampliaram, diante de uma melhora da massa salarial, a margem de compra, o que, conseqüentemente, demandou um maior investimento na produção interna. Para ampliar a capacidade industrial foi necessário que o setor investisse na importação de máquinas e novos equipamentos. As voltas que essa engrenagem deu fermentaram a economia.

Nem tudo são flores, porém. O PIB anunciado precisa ser analisado sob dois tempos: até setembro, momento abarcado pelo resultado divulgado esta semana, e depois de setembro, quando a turbulência internacional se acentuou de vez. Como a tese de descolamento das economias emergentes mostrou-se impossível de ocorrer na prática, a crise impôs uma quebra no ritmo positivo delineado no Brasil e forçou as autoridades a revisarem as expectativas até o fim do ano. Do mesmo modo, empresas e trabalhadores se viram, assustados, diante de uma onda inquietante de demissões, espalhadas por todos os setores da economia. A previsão de retração, mesmo que em menor escala do que no olho do furacão da crise americana, afetará o resultado do último trimestre e o PIB anual. A economia experimenta uma freada no consumo e na produção, compreensível em momentos de crise de confiança.

A despeito de um provável fim de ano menos robusto, a economia brasileira encerrará 2008 com taxa de crescimento situada num patamar notável para tempos de crise. Os mercados e a economia real ainda não conseguiram mensurar o tamanho e a força do tsunâmi que se aproxima. Mas tanto analistas quanto o governo contam com uma previsão de crescimento do PIB em 5% a 5,5% este ano e de até 3%, no máximo, para 2010. Não é um mau negócio. Pelo contrário. "Esta alta", resumiu o ministro Guido Mantega, "significa que ganhamos musculatura para o período mais difícil da crise".

A constatação, contudo, apenas reforça a importância de medidas anticrise, a serem anunciadas pelo governo. A hora é esta. Requer-se, acima de tudo, um fortificante definitivo para o Brasil enfrentar a crise. Eis o desafio: manter níveis razoáveis de crescimento, remando no sentido contrário aos profetas do caos.